Leonardo Soares pronunciou cada palavra com lentidão, quase cortando o ar:
— Quero dizer, há três anos, quando terminamos, o que aconteceu com ela? Por que a professora Vânia disse que a Nanda perdeu grande parte da audição do ouvido esquerdo?
Natália Ribeiro percebeu que a palma da mão de Serena estava suando frio. Ela apertou os dedos da filha para confortá-la. Quando voltou a falar, já havia tomado uma decisão sobre o que dizer.
— Ah, sobre isso... Eu soube de alguma coisa, sim. Foi porque a Fernanda insistiu em viajar até o País E para exigir uma explicação de você. A professora Vânia sentiu que aquilo era uma vergonha e, irritada com a falta de amor-próprio da filha, deu um tapa no rosto dela. Provavelmente perdeu a mão na força.
Natália Ribeiro percebeu que, se Leonardo estava perguntando daquela forma, era porque só conhecia o desfecho da história. Ela não queria usar meias palavras para enganá-lo, mas, como já faziam três anos, achou que não havia necessidade de desenterrar tudo.
Se contasse a verdade nua e crua, conhecendo a personalidade de Leonardo e o quanto ele se importava com Fernanda, ele viraria o mundo de cabeça para baixo.
E se isso acontecesse, o que seria de Serena?
E o que seria de Antôn?
Ela não podia ver Serena entrando em mais uma espiral destrutiva.
Naquela única vez na vida, Natália Ribeiro decidiu ser egoísta pela filha.
Deixaria que o erro continuasse.
— A Fernanda sempre foi muito teimosa. Depois do tapa, ela se recusou a voltar para casa. Pelo que ouvi dos antigos colegas do Colégio de Aplicação da Universidade P, essa menina não pegou um centavo da família e não voltou para casa nem nos feriados. Talvez, de tanta birra com os pais, se recusou a procurar um médico para o ouvido. E com a demora, a audição foi perdida.
Ao ouvir aquilo, o coração de Leonardo foi partido ao meio. A dor foi tão aguda que ele até curvou os ombros. No entanto, ainda havia dúvidas. Afinal, quanta força uma mãe precisaria usar, e quanto ódio precisaria sentir para deixar a própria filha parcialmente surda?
— Mãe, não minta para mim... — Leonardo disse com extrema seriedade. — E não me esconda nada.
Natália forçou um sorriso, ainda segurando firme a mão trêmula de Serena, e respondeu:
— Quando foi que eu menti para você? Se não acredita, vá até a vila residencial do Colégio de Aplicação e pergunte a qualquer um. Todos lá sabem que a Fernanda ficou três anos sem aparecer em casa.
Leonardo sentiu o ar escapar dos pulmões. Uma dor dilacerante tomou conta de todo o seu peito.
Ele puxou o ar com dificuldade, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam cair.

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