Heloisa Porto ouviu as vozes e saiu de dentro da casa para recebê-los. Ela ainda usava um avental simples e elegante, e, ao ver Aeliana, segurou as mãos da nora com carinho.
— Entrem logo, está ventando lá fora. O almoço ainda vai demorar um pouco, mas venham comer uma canjica quente que acabei de fazer hoje cedo.
A sala de estar estava quentinha e aconchegante, preenchida pelo aroma de café fresco e comida caseira.
Aeliana foi puxada por Heloisa para se sentar ao seu lado. A sogra perguntou sobre o andamento do projeto do Sr. Gomes e sobre como ela havia descansado ultimamente, com um tom cheio de preocupação e afeto.
Eduardo também escutava com um sorriso no rosto, de vez em quando fazendo algum comentário sobre saúde e bem-estar.
Jocelino sentou-se na poltrona individual do outro lado de Aeliana. Sua postura parecia relaxada, mas o seu olhar passava casualmente por suas próprias mãos entrelaçadas o tempo todo ou, quando pegava a xícara de café, ele fazia questão de usar a mão esquerda, onde a aliança estava.
No início, a atenção de Eduardo e Heloisa estava focada apenas em Aeliana, então eles não perceberam.
Até que, pela terceira vez, Jocelino "coincidentemente" usou a mão esquerda para pegar a fruteira que Heloisa ofereceu. A aliança de platina, simples mas novinha em folha, brilhou levemente sob a luz do sol que entrava pela janela de vidro.
O movimento de Heloisa parou por um instante. Seu olhar caiu sobre o dedo anelar do filho e, em seguida, observou o rosto de Jocelino, que tentava manter uma expressão neutra, embora seus olhos gritassem "pergunte logo". Ela entendeu a situação na mesma hora.
Segurando o riso, ela fingiu não notar nada e apenas colocou a fruteira sobre a mesa de centro.
Depois de mais um momento, Jocelino inclinou-se para pegar o bule que estava mais afastado. Dessa vez, o movimento foi ainda mais exagerado, com a sua mão esquerda passando quase debaixo do nariz de Eduardo.
Eduardo, que estava segurando o seu bule de porcelana para servir mais café para si mesmo, viu o brilho metálico desconhecido de relance. Ele ergueu uma sobrancelha, abaixou o bule e lançou um olhar afiado para a mão do neto.
— O que é isso na sua mão? — Perguntou Eduardo, com a sua voz forte e direta.
Jocelino parecia estar apenas esperando por essa pergunta. Ele recolheu a mão imediatamente, girou a aliança com uma falsa naturalidade e respondeu com um tom neutro, embora a leve alteração em sua voz entregasse a sua alegria.
— Ah, isso? Uma aliança.
Heloisa finalmente não conseguiu se conter e soltou uma risada. Ela tocou levemente o braço de Aeliana, que estava ao seu lado, piscou na direção de Jocelino e sussurrou rindo:
— Olha só a cara dele.
— Aeliana, foi você quem deu para o Jocelino, não foi?
Aeliana ergueu a cabeça, um pouco tímida, mas concordou abertamente, com a voz suave.
— Sim, eu entreguei para ele ontem.
— Ontem?
Eduardo pescou a palavra-chave e lembrou-se de algo:
— Ah, então quer dizer que ontem vocês dois saíram para aproveitar sozinhos e esconderam isso da gente?
Jocelino finalmente deixou de lado a sua "modéstia". Ele levantou a mão esquerda e observou a aliança contra a luz, como se estivesse admirando a joia mais rara do mundo. Então, com um tom propositalmente exibido, ele acrescentou:
— Foi Aeliana quem fez com as próprias mãos e me deu de presente.

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