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Despertar Depois dos 1460 dias romance Capítulo 1330

— Puta merda...

Àquela altura, o Cicatriz já tinha sacado que havia algo muito errado. Aquela mulher tinha armado tudo.

Era óbvio que ela percebera a perseguição e os atraíra de propósito para o olho do furacão, usando o tumulto para escapar.

Lembrando-se das ordens severas que o chefe havia dado antes da missão, o Cicatriz bateu os ombros com violência contra a parede humana, desesperado para alcançar Aeliana.

Foi exatamente nesse instante que um artista de rua iniciou seu show com fogo.

— Vuuush!

Uma imensa e ofuscante bola de fogo alaranjada explodiu da boca do artista, rasgando o ar saturado e dançando de forma selvagem contra a noite.

O bafo quente das chamas chicoteou o rosto das pessoas, mesmo a metros de distância.

— Uau!

O público soltou um suspiro coletivo de choque e, movidos pelo instinto, todos recuaram num empurra-empurra brutal.

Aquilo transformou a massa que já era impenetrável num verdadeiro liquidificador de gente.

Foi naquele pico de confusão, com a labareda brilhando no alto, que Aeliana entrou em ação.

Ela se abaixou, rápida e flexível, enfiou-se pelos espaços entre as pernas e cinturas da multidão e desapareceu por completo da vista de seus caçadores.

O espetáculo não parou.

O cuspidor de fogo encheu as bochechas para mais uma rajada, e a plateia urrava em êxtase.

A multidão, após o susto inicial, se reacomodou em novos bloqueios. Mais curiosos se amontoaram para ver o fogo, preenchendo qualquer clarão que houvesse sobrado. Ficou pior do que antes.

Quando o Cicatriz finalmente empurrou o sujeito que travava seu caminho, e Igor conseguiu se livrar da barraca de brinquedos de plástico, Rui também apareceu cambaleante num canto um pouco mais vazio.

Os três se entreolharam.

E começaram a varrer o oceano de cabeças num desespero mudo.

Nada.

Nenhum sinal dela.

Aquele casaco cinza parecia ter virado fumaça no calor da noite, sem deixar rastros.

Alguns cachorros vira-latas fuçavam o lixo ali perto.

O zumbido da feirinha continuava ao fundo, o que só deixava o silêncio do beco ainda mais opressivo e humilhante.

O clima era pesado. O rosto de todos parecia de enterro.

Igor ofegava como um touro, com as roupas marcadas por fuligem e sujeira.

O Cicatriz tragou o cigarro recém-aceso com raiva, fazendo a brasa piscar de forma nervosa e avermelhada no escuro.

— Porra, isso é macumba...

— Como é que uma coroa dessas vira fumaça desse jeito? Pisquei e a mulher sumiu!

Quanto mais pensava naquilo, mais o sangue do Cicatriz fervia.

O cara tinha mais de uma década na vida do crime. Já fez tocaia, sequestro, cobrança na base da pancada e trabalho de eliminação. E hoje foi feito de palhaço por uma velha com uma maletinha!

Se essa história vazasse, como é que o Cicatriz ia conseguir manter qualquer respeito no submundo da zona sul?

Aquele orgulho ferido travou na garganta. Não descia e não voltava. Aquilo doía muito mais do que levar uma coronhada na cabeça.

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