Originalmente, apostando em alto ou baixo, ele tinha a vitória praticamente garantida. Mas mudando para adivinhar a soma exata e comparar a proximidade, as variáveis aumentavam drasticamente.
E se esse caipira acertasse por pura sorte...
— O que foi? O Sr. Ricardo não tem coragem?
Jocelino notou a hesitação dele e falou no momento certo, com um tom que carregava uma provocação sob medida.
— Ou será... que o Sr. Ricardo acha que jogar desse jeito dificultaria o trabalho em equipe com o crupiê?
Ele pronunciou as últimas palavras de forma leve, mas a expressão “trabalho em equipe” agiu como uma agulha que picou de leve.
Considerando a armação óbvia no jogo de vinte e um anterior e a fúria do Sr. Soberano, todos entenderam as entrelinhas.
O rosto de Ricardo ficou pálido num instante e ele bateu com força na mesa:
— Vai falar merda pra lá! Que baboseira é essa? Quem disse que eu não tenho coragem?
— Caipira, não venha cuspir mentiras em cima de mim!
— Eu ando na linha e jogo limpo!
— Que bom, então não há problema.
Jocelino respondeu imediatamente, e seu rosto recuperou um pouco daquela expressão de ingenuidade, como se a provocação de momentos antes não tivesse vindo dele.
— Eu só achei que jogar assim seria mais justo e mais... divertido. Se o Sr. Ricardo acha que não tem problema, então jogamos assim?
Com essa fala, ele devolveu a batata quente, fazendo parecer que tinha apenas sugerido algo “divertido”, e que o agressivo da história era Ricardo.
Ricardo se viu sem saída.
É claro que ele não queria aceitar, mas, se recusasse, não estaria confirmando que tinha culpa no cartório e medo de uma disputa justa? Tantos olhos estavam sobre ele, especialmente o olhar furioso do Sr. Soberano, que parecia querer devorá-lo vivo.
Ele fuzilou Jocelino com os olhos e lançou um rápido olhar para o crupiê. O crupiê deu um aceno afirmativo, quase imperceptível.
Ricardo respirou fundo, suprimiu a raiva com esforço e forçou um sorriso torto:
Tlec, tlec, tlec...
Tlec, tlec, tlec.
Desta vez, o crupiê balançou por mais tempo e com mais força. O som das colisões dos dados tornou-se mais denso e caótico, como se quisesse triturar todas as possibilidades lá dentro.
Ricardo fixou o olhar no copo, inclinando levemente o corpo para frente, parecendo se esforçar para escutar e julgar. Os capangas atrás dele também prenderam a respiração.
O Sr. Soberano cerrou os punhos e um suor fino brotou em sua testa.
Fabíola desfez os braços cruzados, esfregando os dedos inconscientemente nas mangas, enquanto não tirava os olhos de Jocelino nem por um segundo.
E Jocelino, desde o primeiro movimento do copo, fechou os olhos lentamente.
Sua cabeça inclinou-se sutilmente na direção do som, e o vinco de suas sobrancelhas se franziu de forma quase imperceptível. Toda a sua atenção parecia estar concentrada em seus ouvidos.
Todo o barulho, os olhares e as discussões externas pareciam ter se afastado dele; em seu mundo, restava apenas o som sutil das três peças girando em alta velocidade, colidindo e caindo dentro do copo de dados.

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