Tlec, tlec, tlec.
O barulho do copo parou abruptamente, seguido por um baque forte quando o crupiê o cravou no centro da mesa.
Todo o burburinho e as conversas também cessaram na mesma hora.
Ricardo foi o primeiro a falar. Ele recostou-se, recuperando um pouco de sua postura confiante anterior e, num tom que parecia uma concessão esnobe, apontou o queixo para Jocelino.
— Caipira, a regra foi ideia sua, então dê o seu palpite primeiro. Para não dizerem que o Sr. Ricardo aqui te oprime e não te dá a vantagem do primeiro lance.
A fala dele soou cheia de moral, mas na verdade escondia segundas intenções.
A trapaça entre ele e o crupiê era clara para ambos.
Se Jocelino adivinhasse primeiro, o crupiê poderia manipular os dados para um resultado distante do número escolhido, ao mesmo tempo em que garantiria que o palpite de Ricardo fosse o mais próximo.
Mas, se Ricardo adivinhasse primeiro, e se o caipira decidisse chutar baseando-se no número dele, e acabasse acertando?
Portanto, deixar o matuto dar o palpite primeiro era a escolha mais segura.
Jocelino ergueu as pálpebras e deu uma olhada em Ricardo.
Aquele olhar foi gélido, quase vazio de emoção, mas Ricardo sentiu uma picada incômoda, como se algo o tivesse espetado.
Contudo, Jocelino logo baixou a cabeça novamente, retomando aquela postura nervosa, aparentando não ter percebido o truque de Ricardo ou, se tivesse, não haveria nada que pudesse fazer a respeito.
Ele umedeceu os lábios, parecendo pensar com extrema dificuldade; os olhos vagaram sobre o copo inerte enquanto seus dedos se entrelaçavam inconscientemente.
Alguns segundos depois, justo quando Ricardo estava perdendo a paciência e prestes a apressá-lo, ele soltou um número:
— Eu chuto... dez.
Dez?
Um número perfeitamente no meio-termo.
Nem muito alto, nem muito baixo.
Um murmúrio de conversas em tom baixo circulou entre os presentes; alguns achavam que ele tinha sido conservador, outros que estava dando um tiro no escuro.
Ricardo soltou uma risada fria internamente e olhou para o crupiê.
O rosto do crupiê continuava impassível, mas, quando Ricardo o fitou, seu dedo indicador esquerdo, pousado sobre a tampa do copo, bateu duas vezes para baixo de forma levíssima.
O entorno da mesa de apostas explodiu numa algazarra instantânea. Gritos de incredulidade se misturaram.
— Cacete! Dez! É dez mesmo! Na mosca!
Um homem gordinho de camisa estampada bateu forte na própria coxa, com os olhos quase saltando das órbitas.
— Loucura! E ele acertou? Cravou o número exato? Que tipo de sorte divina é essa?
O cigarro de um homem magro e alto ao lado dele quase caiu da boca, e sua voz subiu de tom pela empolgação.
— Ei, ei, ei, fala sério, cara, isso é possível? Aquele cai... aquele Sr. Porto realmente acertou por pura sorte?
Alguém esfregou os olhos, recusando-se a acreditar.
— Pura sorte? Vai lá e acerta por pura sorte pra eu ver!
Outro retrucou de imediato, com um tom de quem adora ver o circo pegar fogo.
— Até daria para dizer que foi sorte se fosse a primeira vez, mas quantas vezes esse Sr. Porto já frustrou os planos do Sr. Ricardo...
— Sinistro, esse Sr. Porto de Altavista tem mesmo alguma coisa de sinistro.

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