A qualidade do sono de Marcelo costumava ser muito leve, mas talvez porque a poeira sobre os problemas da família Costa finalmente tivesse baixado e ele tivesse começado uma nova vida, ele agora dormia muito melhor do que antes.
O telefone tocou por um bom tempo antes que ele ouvisse.
A luz fria da tela parecia especialmente ofuscante na calada da noite.
Marcelo estreitou os olhos, franziu a testa e pegou o celular; a tela mostrava um número desconhecido de Vila das Nuvens Cinzentas.
Vila das Nuvens Cinzentas?
Qual amigo de Vila das Nuvens Cinzentas ligaria para ele no meio da madrugada?
Uma sombra de dúvida cruzou a mente de Marcelo.
Logo em seguida, um nome saltou à sua cabeça.
A mente de Marcelo, que antes estava um pouco enevoada pelo sono, despertou instantaneamente.
Ele segurou o celular, meio hesitante.
A razão lhe dizia que deveria simplesmente recusar a chamada.
Afinal, eles não tinham mais nada a dizer um ao outro há muito tempo, restando apenas humilhação e ressentimento; se ele atendesse, seria apenas para ouvir os mesmos clichês cansativos de sempre.
Mas o dedo dele pairava sobre o botão vermelho de rejeitar a chamada, sem conseguir pressioná-lo de imediato.
Marcelo pensou por um longo momento e, lembrando-se de algo, finalmente deslizou o dedo para atender, levou o aparelho ao ouvido e ficou em silêncio.
Um leve chiado de estática soou no alto-falante.
Marcelo ouviu uma voz que lhe era familiar, mas que parecia vir de muito longe.
— Marcelo... é você?
Realmente era Amália.
Ele conseguia até imaginar Amália do outro lado da linha, com o rosto banhado em lágrimas e uma expressão de coitada. Houve um tempo em que até ver as lágrimas dela partia seu coração.
Mas aquela imagem não provocava mais nenhuma onda de emoção dentro dele. Ele apenas achava as perguntas dela completamente estúpidas e tão patéticas que chegavam a ser cômicas.
Na frente dos olhos de Marcelo piscaram as imagens de seu pai, cujos cabelos ficaram brancos do dia para a noite de tanto desgaste; os suspiros contidos de sua mãe; o esforço de sua irmã Beatriz, que agora precisava fazer bicos para ajudar nas despesas de casa; e o seu próprio cansaço.
Pensar que um dia ele também foi o senhor da família Costa que gastava dinheiro como se fosse água, e hoje precisava correr de um lado para o outro por uns trocados, aturando a cara feia dos outros. Cada dia que abria os olhos, sentia o peso esmagador das dívidas e a pressão para sobreviver.
Afinal de contas, a família Costa estava falida, e eles também precisavam pagar pelos erros do passado. Todos eles estavam se arrastando na lama, preocupados com a sobrevivência no mundo real. De onde tirariam energia para ficar remoendo histórias de “amor e paixão” que já haviam apodrecido há muito tempo?
E a Amália?
Pela voz dela, não parecia ter sofrido nenhuma dificuldade. Continuava sendo a mesma mulher fútil, cuja cabeça vazia só pensava em romance.
E não era de se admirar. Assim que a família Costa caiu, ela foi levada por alguém, desaparecendo sem deixar rastros. Pelo jeito, essa pessoa estava protegendo-a muito bem.

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