Por isso ela ainda tinha aquelas fantasias irreais, achando que o mundo continuava girando em torno dela, acreditando que as pessoas que ela machucara continuariam esperando por ela no mesmo lugar e ainda dariam importância ao seu patético “amor”.
Mas, parando para pensar, pessoas egoístas se saem bem em qualquer lugar.
Bastava olhar para a família Oliveira. Naquela época, por causa de Amália, a filha adotiva, eles foram capazes de abandonar e difamar até a própria filha biológica, Aeliana. Chegaram a mandar a própria filha de sangue para a prisão por causa dela.
E o resultado?
Quando a família Oliveira entrou em crise, Amália por acaso voltou lá nem que fosse para dar uma espiada?
Assim que a família Oliveira faliu e caiu na miséria, ela correu mais rápido que qualquer um. Quando fugiu, sequer avisou a família Oliveira, como se eles fossem apenas um trampolim descartável.
Partiu em silêncio, como se todo o favor da criação e o favoritismo do passado tivessem sido jogados no lixo.
Com que cara ela vinha agora interrogá-lo?
Pois é, os egoístas só enxergam seus próprios ganhos e perdas, achando sempre que o mundo inteiro lhes deve algo. E o suposto amor e sacrifício de Amália não passavam de uma roupagem glamorosa usada para alcançar seus objetivos.
Assim que não havia mais vantagem a tirar, ou diante de algum risco, a velocidade com que ela pulava fora superava a de qualquer um, e sem o menor pingo de culpa.
Pensando nisso, a última gota de emoção conflituosa que as lembranças do passado trouxeram ao coração de Marcelo esfriou por completo. Restou apenas repulsa e uma pitada de piedade pelo filho que ainda nem havia nascido.
Afinal, tendo uma mãe daquelas, era fácil imaginar que o futuro da criança não seria dos melhores.
Embora, de certa forma, aquele bebê também fosse seu filho.
Ao lembrar desse detalhe, Marcelo sentiu uma onda de nojo e irritação. Queria encerrar a ligação imediatamente.
Ele fechou os olhos por um segundo e, quando falou de novo, havia um tom de deboche em sua voz:
— Se o meu coração não bate, será que o seu bate?
— Não vá se esquecendo do que você fez com a nossa família Costa.
— Quer que eu te ajude a refrescar a memória?
— Marcelo, eu fiz todas aquelas coisas porque eu te amava demais!
— Eu sei que errei muito no passado, mas eu realmente não posso viver sem você!
— Eu te amo!
— Me ama?
Marcelo riu pelo nariz, como se tivesse ouvido a maior piada do mundo, um riso cheio de ironia infinita.
— Amália, se o seu amor significa machucar a minha família, me manipular e transformar a minha vida num verdadeiro inferno... então eu dispenso esse seu tipo de amor.
— Sem esse seu “amor”, minha família e eu provavelmente viveríamos muito melhor.
A zombaria impiedosa dele a atingiu em cheio, fazendo-a perder o fôlego, como se conhecesse o homem do outro lado da linha pela primeira vez.
Ela não entendia como aquele Marcelo, que um dia foi tão gentil, compreensivo e indulgente com ela, havia se tornado tão amargo e afiado, atirando palavras que perfuravam seu coração como facas.

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