— Marcelo...
— Como... como você pode me tratar assim?
Com a voz trêmula, carregada de incredulidade e dor, ela continuou:
— Você esqueceu tudo o que já me disse?
— Você disse que me amaria, que me protegeria, que não me abandonaria nunca por toda a vida.
— Mas e o que você está fazendo agora?
— Como você pôde ficar desse jeito?
— Como eu pude ficar desse jeito?
Quem o forçou a ficar daquele jeito? Será que Amália, no fundo, não sabia muito bem?
A postura ignorante e estúpida de Amália irritou Marcelo profundamente. A raiva reprimida e a decepção de tanto tempo finalmente encontraram uma saída.
— Eu fiquei desse jeito... por acaso não foi você quem me empurrou para isso, passo a passo?
— Amália, olha para tudo o que você fez! Qual de todas essas suas ações é digna da palavra “amor”?
Marcelo respirou fundo, forçando-se a manter a calma, mas a aversão era tão palpável que transbordava em suas palavras.
— E tem também essa criança. Você precisa que eu te lembre de como ela foi concebida?
O coração de Amália deu um salto doloroso e sua mão cobriu instintivamente o ventre, como se isso pudesse blindá-la da frieza das palavras dele.
Ela quis retrucar, dizer que foi porque o amava demais, porque estava sem saída... mas sua garganta parecia estar sendo estrangulada, emitindo apenas ofegos entrecortados.
As acusações de Marcelo continuaram. Sua voz estava tão fria quanto o gelo; apesar da noite amena, Amália sentiu como se estivesse presa em uma câmara frigorífica.
— Foi porque você me drogou!
— Se você não tivesse tramado e calculado contra mim, como é que poderíamos ter um filho juntos?
— Uma criança que nunca foi desejada desde o começo, que foi trazida ao mundo através de métodos tão sujos e forçados... como você espera que eu goste dela? Que a ame?
Marcelo a chamou pelo nome, cada sílaba tão afiada quanto cacos de gelo:
— Chegando a este ponto, você não previu a situação em que a criança se encontraria?
— Você sabe muito bem que, ao nascer, ela já estará condenada a não receber um pingo de amor do pai. Pode até ter que crescer em meio ao ressentimento dos pais, carregando o estigma vergonhoso de ter sido “fruto de manipulação” e ser “indesejada”...
— Você sabia disso melhor do que ninguém.
— E mesmo assim o fez.
— Tudo isso não é obra puramente sua?
— Você enche a boca para dizer que ama a criança... e é assim que você demonstra esse amor?
Naquele momento, Amália já não conseguia ouvir mais nada.
Em sua mente apenas ecoava, repetidamente, o fato de que Marcelo usara a palavra “nojo”... para descrever o filho deles.

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