Amália finalmente falou, com a voz ainda carregada pela rouquidão do sono e por um traço quase imperceptível de cansaço.
“Telma” pareceu levar um susto enorme. Estremeceu por inteiro, e um dente de alho escapou de sua mão, batendo no chão com um som seco.
Ela se levantou às pressas, atrapalhada com os próprios movimentos, e olhou para Amália parada na porta, com o rosto tomado pelo pânico e pelo desconforto de ter sido flagrada.
— P-patroa? O que a senhora está fazendo aqui embaixo?
— A senhora está com fome?
Amália estava mesmo prestes a ralhar com ela por estar ali em vez de dormir, mas ao ver, sob aquela luz pálida, o rosto genuinamente assustado e quase simplório da garota, e depois de reparar na cabeça de alho pela metade em suas mãos, engoliu a bronca.
Talvez... comer alguma coisa quente ajudasse a aliviar aquela sensação de vazio.
A irritação em seu coração diminuiu um pouco mais.
— Sim, estou com um pouco de fome.
Ela massageou as têmporas, que latejavam de leve, e foi até a sala de jantar, sentando-se em uma das cadeiras.
— Prepare para mim um macarrão com caldo. Algo bem leve.
— Ah! Sim, senhora! Só um minutinho, patroa, sai rapidinho!
“Telma” concordou de imediato e começou, com agilidade, a ferver a água e preparar os ingredientes.
Ela parecia ter talento para lanches rápidos da madrugada. Em poucos minutos, uma tigela fumegante de sopa de macarrão com ovo, com caldo claro e enfeitada com cebolinha e algumas folhas verdes, foi colocada diante de Amália.
Amália pegou os talheres, enrolou um pouco de macarrão e levou à boca.
O sabor era surpreendentemente bom. A massa estava macia, e o caldo era leve, mas muito saboroso. A refeição confortou em cheio o seu estômago ainda revirado pelo susto.
Talvez fosse pelo silêncio absoluto da madrugada, pela vulnerabilidade deixada pelo pesadelo ou talvez por causa daquela simples e reconfortante tigela de sopa, mas Amália fez algo raro: ergueu os olhos e encarou de verdade aquela cozinheira caipira que vivia sempre de cabeça baixa.
— Por que você ainda não foi dormir a essa hora?
Amália perguntou casualmente. Seu tom havia perdido a arrogância habitual e soava muito mais como alguém tentando puxar conversa.
Havia retornado ao convívio de seu pai biológico. O Sr. Marques cumprira a promessa, permitindo-lhe viver numa mansão e proporcionando-lhe uma vida de luxo, conforto e abundância, colocando-a sob sua total “proteção”.
Mas, morando ali, ela não sentia o menor vestígio do calor e do aconchego de um lar.
Aquela casa parecia muito mais uma gaiola de ouro — bela, porém gelada. Seu pai aparecia e desaparecia como um fantasma, com pensamentos complexos e insondáveis, a ponto de ela sequer ousar agir com caprichos infantis em sua presença.
Os empregados e seguranças ao seu redor eram extremamente educados, mas não havia qualquer proximidade real.
Voltar para perto do verdadeiro pai... Pela lógica, aquilo deveria ser o porto seguro com o qual ela tanto sonhara. Então por que seu coração sentia um vazio tão imenso, desprovido de qualquer segurança?
Inevitavelmente, os pensamentos de Amália se voltaram para a família Oliveira.
Seu olhar perdeu o brilho, e uma amargura densa e complexa invadiu seu peito.
Como será que eles estavam agora?
A família Costa ruiu, a família Oliveira foi à falência, e toda a glória se desfez como fumaça. Rodrigo, que antes lhe dedicara tanto carinho e que no fim acabara arruinado por causa dela... estaria Rodrigo a odiando profundamente naquele momento?

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