O lugar inteiro transmitia uma sensação de decadência arrastada, em contraste brutal com o movimento agitado das ruas do lado de fora.
O chefe de salão correu até Fabíola, curvando-se em excesso:
— Sra. Saramago! A que devemos a honra da sua visita?
Fabíola assentiu friamente, sem grande entusiasmo, mas também sem grosseria.
O chefe de salão percebeu a presença de Jocelino ao lado dela. Uma sombra de surpresa atravessou seu rosto, e ele começou a avaliá-lo discretamente.
— Sra. Saramago, este cavalheiro seria... — perguntou com cautela.
— Isso não é da sua conta — interrompeu Fabíola, num tom neutro, franzindo levemente a testa. — Onde está o gerente de vocês? Eu não mandei avisar logo cedo para ele vir me receber?
Mal terminou de falar, um homem de meia-idade, com um terno um pouco apertado e a testa brilhando de suor, veio correndo dos fundos do salão, enxugando o rosto com um lenço enquanto se aproximava.
— Sra. Saramago, é uma honra recebê-la! Perdoe a minha demora, por favor, me perdoe!
A voz do gerente chegou antes mesmo dele. Ao se aproximar, ele não parava de se curvar para Fabíola, antes de voltar a atenção para Jocelino, com um sorriso ainda maior e um ar evidente de curiosidade.
— E esse chefe seria...
— Este é o Sr. Porto. A partir de hoje, ele assumirá o controle do “Cassino Noite de Cristal” — Fabíola o apresentou de maneira curta e direta, sem qualquer emoção na voz, como se estivesse anunciando a coisa mais comum do mundo.
O gerente congelou por um segundo, claramente pego de surpresa pela chegada repentina de um novo dono. Mas logo se recompôs e estendeu as mãos para Jocelino sem perder tempo.
— Sr. Porto! Como vai, senhor?
— Meu sobrenome é Sousa, sou o gerente daqui. Pode me chamar de Matheus. Espero poder trabalhar bem sob a liderança do senhor daqui para a frente.
Jocelino apertou a mão do gerente, sacudindo-a com cordialidade.
Jocelino assentiu, sem demonstrar muita emoção.
O Sr. Sousa se posicionou de lado, abrindo caminho com entusiasmo, e foi fazendo apresentações a cada passo.
— Sr. Porto, não se impressione com o fato de o Cassino Noite de Cristal estar passando por uma fase difícil agora. Isso é algo passageiro.
— O senhor não faz ideia. Alguns anos atrás, este era o cassino mais famoso do bairro. Vivíamos lotados todos os dias, cheios de ricos apostando, e o dinheiro corria solto!
Enquanto conduzia Jocelino pelo salão, ele se gabava animadamente do “esplendor” do passado, apontando para algumas decorações levemente desgastadas.
— Olhe este design, foi pensado e executado à mão por um decorador italiano famoso! E este tapete é importado! As nossas máquinas e mesas também eram as mais modernas da época!
— O problema é que as coisas não andam muito bem nos últimos anos, e a concorrência aumentou. A família Saramago tem negócios demais e não teve tempo de investir em renovação por aqui, então o lugar acabou ficando um pouco... antiquado.

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