Não se deixe enganar pela fanfarronice com que o Sr. Sousa falava com Jocelino. Na realidade, a situação financeira do cassino era péssima. Se continuassem daquele jeito, talvez não demorasse para quebrar.
O motivo de o Sr. Sousa estar pintando um quadro tão bonito para o novo chefe era simples: ele percebera que aquele homem não parecia difícil de enganar.
Esses ricaços de fora sempre têm dinheiro sobrando. Além disso, não conheciam as águas profundas da Vila das Nuvens Cinzentas e tampouco pareciam ter o menor talento para os negócios.
De qualquer forma, o cassino logo iria à falência. Era a chance perfeita para aproveitar o entusiasmo do novo chefe recém-chegado e persuadi-lo a colocar mais dinheiro ali. Com alguma conversa bem armada, o próprio Sr. Sousa conseguiria arrancar uma boa fatia para si.
Pensando nisso, o Sr. Sousa se aproximou mais de Jocelino, abaixou a voz e assumiu a postura de alguém que falava de coração aberto.
— Sr. Porto, como o senhor acabou de chegar, talvez ainda não esteja por dentro de alguns detalhes internos.
Fez essa introdução e depois mudou o tom, deixando a voz carregada de sedução.
— O nosso “Cassino Noite de Cristal”... não olhe apenas para a situação atual, que está um pouco... digamos, decadente, porque isso é passageiro. Vou ser sincero com o senhor...
— A base deste cassino é simplesmente fantástica!
O Sr. Sousa ergueu o polegar, com os olhos brilhando.
— A localização é impecável! Fica no coração do centro histórico, com acesso fácil por todos os lados, e acumula anos e anos de excelente reputação!
— Os nossos clientes antigos ainda têm este lugar no coração! Assim que o movimento voltar a esquentar um pouco, eles retornam na mesma hora!
Vendo que Jocelino escutava com tanta “atenção”, ele se animou ainda mais, e sua voz foi ficando cada vez mais persuasiva.
— Neste momento, na verdade, só falta aquele empurrãozinho final.
— E, quando isso acontecer, o dinheiro vai entrar sem parar! O pequeno investimento que o senhor fizer vai voltar multiplicado muitas vezes! Vai ganhar tanto que nem vai saber o que fazer com tudo isso!
O Sr. Sousa falou tanto que ficou com a boca seca. Sentindo que o clima estava ideal, planejava aproveitar o momento para sondar as intenções do novo chefe: descobrir quanto ele pretendia investir e quando o dinheiro cairia na conta...
No entanto, viu Jocelino tirar calmamente um lenço e limpar as mãos que haviam sido apertadas calorosamente pelo Sr. Sousa. Em seguida, levantou os olhos, ainda com o mesmo sorriso de sempre, mas o que disse fez o sorriso do gerente congelar na hora.
— Sr. Sousa, agradeço pelo empenho. Com tudo o que você me disse, já consegui entender um pouco da situação. Mas, quando faço negócios, gosto de ver as coisas concretas.
Seu tom era pacífico, quase amistoso.
— Então que tal me fazer o favor de trazer os livros contábeis do nosso “Cassino Noite de Cristal” referentes aos últimos... digamos, dois anos, para eu dar uma olhada?

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