Naquele dia, durante o jantar da família Saramago, o pai de Fabíola mencionou o assunto num tom aparentemente casual.
— Ouvi dizer que aquele chefe do país A, o Narciso, que você apresentou antes, anda fazendo bastante barulho no Cassino Noite de Cristal.
A mão de Fabíola, que servia a comida, parou por um instante antes de voltar ao normal.
— O senhor também ficou sabendo, pai?
Ela pousou os talheres, pegou o guardanapo e limpou suavemente o canto da boca, tentando parecer indiferente, mas sem conseguir esconder um leve orgulho.
— Na verdade, não é nada demais. Foi só que... por causa de algumas circunstâncias, eu prometi ajudá-lo a abrir algumas portas e encontrar recursos aqui na Vila das Nuvens Cinzentas.
— O senhor sabe que ele veio do Vale do Sul e acabou de chegar por aqui. Não é fácil abrir espaço numa cidade como esta assim, de repente.
O pai de Fabíola soltou um simples “hum”, pegou um pedaço de carne assada e ergueu os olhos para a filha, num tom que não deixava claro se havia aprovação ou reprovação.
— Você tem sido bem prestativa.
— E ainda prometeu arrumar recursos para ele?
— Que tipo de recursos?
— Não vá me dizer que foi o Cassino Noite de Cristal.
Fabíola sentiu-se um pouco desconfortável sob o olhar do pai e abaixou um pouco a voz.
— Foram só... alguns canais de fornecimento e contatos nas docas. Parece que ele quer começar algum comércio de mercadorias entre o país A e o nosso lado.
— E depois? — insistiu o pai dela, mastigando devagar.
— Depois...
Fabíola apertou os lábios, parecendo um pouco sem graça.
— Houve um pequeno contratempo no meio do caminho. O Edivaldo... bem, o fato é que nem tudo pôde ser resolvido logo de imediato.
O pai de Fabíola ouviu a filha descrever a situação com um entusiasmo difícil de disfarçar. Franziu levemente a testa, sem comentar nada de imediato, apenas servindo mais comida no prato.
Ao lado, Edivaldo soltou uma risadinha, largou a colher de sopa e entrou no assunto num tom de brincadeira:
— Pai, o senhor ainda não percebeu? A nossa Fabíola está interessada demais nesse chefe do Vale do Sul.
Ele lançou um olhar provocador para a irmã.
— Por que mais ela seria tão dedicada assim, ajudando um estranho do país A a conseguir recursos e ainda entregando um cassino?
— Do jeito que eu vejo, isso já passou da fase dos negócios. Acho que ela se apaixonou pelo Sr. Porto, não acha?
— Edivaldo! O que é isso que você está falando?!
O rosto de Fabíola ficou vermelho na mesma hora. Ela lançou um olhar furioso e envergonhado para o irmão, mas não negou de imediato. Apenas abaixou a cabeça e começou a cutucar a comida com os talheres, enquanto as orelhas ganhavam um tom rosado.

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