O que ela não podia ter, ninguém mais teria. E aquilo que desejava, mesmo que fosse para destruir, ela ainda manteria nas mãos.
Aquela mulher doente... que esperasse.
O sedã preto entrou suavemente na garagem da mansão da família Saramago.
A porta do carro se abriu, e Fabíola desceu de salto alto, andando mais rápido do que de costume.
Seu rosto ainda mantinha a frieza e a compostura de sempre diante do motorista e dos empregados. Ela até fez um leve aceno para o mordomo que veio recebê-la. Mas só ela sabia que, desde o saguão do hotel, havia um fogo queimando por dentro, corroendo sua calma superficial.
Ela foi direto para o quarto. O som dos saltos batendo no mármore polido ecoava apressado pelo corredor.
Os empregados que encontrava pelo caminho se curvavam para cumprimentá-la, mas Fabíola fingiu nem notar, olhando apenas para a frente. Só quando empurrou a porta do quarto e se isolou completamente do mundo é que a corda esticada dentro dela finalmente se rompeu.
Encostada na porta gelada, Fabíola respirou fundo e soltou o ar pesadamente.
O ambiente ainda guardava o perfume caro que ela costumava usar, mas, naquele momento, até aquele aroma lhe pareceu sufocante.
Ela fechou os olhos, e tudo o que havia acontecido no saguão do hotel voltou à sua mente sem controle.
A expressão falsamente inocente no rosto dele, o movimento frio de se esquivar quando ela tentou se aproximar, o gesto de limpar o rosto com evidente repulsa e, por fim, as costas retas e decididas quando foi embora sem hesitar...
Cada detalhe era como um tapa silencioso no ego dela, algo que nunca havia experimentado desde a infância.
Fabíola caminhou até o espelho.
A mulher refletida ali estava impecável. A maquiagem perfeita, o conjunto de edição limitada moldando suas curvas, cada fio de cabelo no lugar.
Ela era Fabíola Saramago, a filha da família Saramago, admirada por incontáveis pessoas na Vila das Nuvens Cinzentas. Deveria ser alguém bajulada por todos, acostumada a conseguir tudo o que quisesse.
Se não fosse por ela, como Narciso teria dito absurdos como “eu só amo ela”?
Se não fosse por aquela mulher no caminho...
Um pensamento venenoso surgiu do fundo mais sombrio do coração de Fabíola, como uma cobra se erguendo de repente, e tomou conta de sua mente num instante.
Ela precisava se livrar dela.
Enquanto aquela inútil doente desaparecesse, Narciso naturalmente acabaria cedendo.
Quando isso acontecesse, fosse por tristeza ou por abatimento, seria a oportunidade perfeita para Fabíola se aproximar e se tornar a pessoa que lhe ofereceria “calor” e “consolo”.
Com sua beleza, a força da família Saramago e os meios que tinha à disposição, ela se recusava a acreditar que não conseguiria conquistar um homem que acabara de perder a esposa e estivesse emocionalmente fragilizado.

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