Do outro lado da linha, Sr. Marques ouviu tudo em silêncio.
Só falou quando o pai de Fabíola terminou.
Sua voz saiu grave e estável, sem revelar qualquer emoção mais evidente.
— Narciso?
— Desde quando a família Rodrigues ganhou mais um filho bastardo?
— Como nunca ouvi falar disso?
Pelo tom dele, era impossível saber se estava interessado ou apenas indiferente.
— A Vila das Nuvens Cinzentas é um lugar onde todo tipo de gente se mistura. Não dá para saber quem alguém é só pela aparência.
— Meus assuntos por aqui estão quase resolvidos. Quando eu voltar, organize tudo. Quero conhecer esse homem pessoalmente.
— Sim, Sr. Marques.
O pai de Fabíola concordou na mesma hora, numa atitude ainda mais reverente:
— Fique tranquilo. Deixarei tudo preparado. Assim que o senhor voltar, poderá vê-lo quando quiser.
— Certo.
Sr. Marques respondeu secamente, sem prolongar o assunto, e encerrou a ligação depois de dar mais algumas instruções breves.
A tela do telefone escureceu, e o escritório voltou a mergulhar em silêncio absoluto, cortado apenas pelo zumbido quase imperceptível do abajur.
O pai de Fabíola abaixou o aparelho e recostou-se na ampla cadeira de couro, batendo levemente os dedos no apoio do braço, com um brilho calculista nos olhos.
Precisava fazer Fabíola agir com mais empenho para prender aquele “Narciso” de vez ao barco da família Saramago antes do retorno do Sr. Marques.
Depois de encerrar a ligação com o pai de Fabíola, Sr. Marques deixou o telefone de lado.
Do lado de fora da janela se estendia a noite de um país estrangeiro. Seu rosto não mostrava cansaço, apenas uma frieza profundamente calculista.
Após pensar por um instante, ele pegou outro celular, um aparelho criptografado, e discou um número que sabia de memória.
O telefone tocou por um bom tempo antes de ser atendido. Quando a ligação finalmente caiu, a voz de Amália soou um pouco sonolenta, mas visivelmente mais leve do que de costume.
— Alô?
— Amália, sou eu.
Do outro lado da linha, Sr. Marques pareceu um pouco surpreso, mas, acima de tudo, aliviado.
Antes, os constantes ataques de nervos e as reclamações intermináveis de Amália já estavam lhe dando dor de cabeça, e ele temia que aquilo afetasse a gravidez.
— É mesmo? Ótimo.
— Pelo visto, essa nova nutricionista é realmente competente.
— Sim! A Telma cozinha muito bem! Tudo o que ela faz combina perfeitamente com o meu gosto! — Amália a elogiou, algo raro vindo dela.
— Que bom. Então deixe que ela cuide bem de você.
Sr. Marques fez uma pequena pausa antes de ir direto ao ponto:
— Eu já resolvi praticamente tudo por aqui. Daqui a três dias, estarei de volta à Vila das Nuvens Cinzentas.
— Sério?
— Pai, o senhor vai voltar? — A voz de Amália subiu na hora, tomada de surpresa e alegria.
Embora muitas vezes se sentisse pressionada pela presença dele, isso ainda era muito melhor do que continuar sozinha naquela mansão enorme. Ela preferia mil vezes ter alguém ao seu lado.

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