— Sim, já comprei a passagem.
A voz de Sr. Marques continuava serena:
— Cuide bem de você nesses próximos dias e evite qualquer problema. Se houver algo pendente, conversaremos quando eu chegar.
— Entendi, pai! Vou esperar pelo senhor!
Amália desligou o telefone radiante, como se até o sol do lado de fora tivesse ficado mais bonito.
Naquele momento, “Telma” se aproximou com cuidado, trazendo uma pequena tigela de creme doce e nutritivo que acabara de preparar.
Ela pousou delicadamente a tigela de porcelana branca sobre a mesa de centro ao lado de Amália, mantendo os olhos baixos, e disse com respeito:
— Senhorita, a sobremesa da tarde está pronta. Coma enquanto ainda está quente.
Amália murmurou em concordância e pegou a tigela, mexendo devagar o creme brilhante com a colher de porcelana, enquanto o vapor perfumado subia no ar.
“Telma” não saiu imediatamente. Em vez disso, começou a arrumar as revistas espalhadas sobre a mesa e as almofadas fora do lugar.
Enquanto colocava tudo em ordem, observou discretamente, pelo canto dos olhos, o perfil de Amália. Ela parecia muito mais relaxada do que de costume e até trazia um leve sorriso nos lábios, o que chamou sua atenção.
“Telma” interrompeu o que estava fazendo, levantou um pouco o rosto e perguntou em tom investigativo:
— Com quem a senhorita estava falando ao telefone agora há pouco?
— A senhora parecia tão feliz... aconteceu alguma coisa boa?
Amália, que já ia levar uma colherada do doce à boca, parou no meio do gesto e lançou um olhar para “Telma”.
Vendo que a expressão da moça parecia apenas ingênua e sinceramente preocupada, sem qualquer sinal de malícia ou curiosidade excessiva, a vigilância instintiva de Amália se desfez.
Ela não desconfiava de “Telma”.
Depois desse período de convivência, Amália já achava que tinha entendido bem a nova nutricionista.
Aquela Telma era só uma garota do interior, obediente e sem grandes ambições. Mesmo que soubesse de alguma coisa, não representaria ameaça.
— Esse creme ficou no ponto. Coma mais um pouco, senhorita, para recuperar as forças. O patrão vai ficar muito feliz quando chegar e vir a senhora tão bem!
As palavras eram simples, até um pouco rústicas, mas diziam exatamente o que Amália queria ouvir.
O sorriso dela se alargou, e ela se sentiu ainda mais confortável diante da atenção de “Telma”.
— É, você sabe mesmo dizer as coisas certas.
Com o coração leve, Amália continuou a saborear o doce, pensando que, embora fosse uma moça do interior, a garota compensava isso sendo atenciosa e sabendo falar no momento certo.
“Telma” ainda disse mais algumas palavras agradáveis antes de se retirar com uma pequena reverência. Mas, no instante em que virou as costas e caminhou em direção à cozinha, o sorriso ingênuo em seu rosto sumiu completamente, substituído por um olhar frio e cortante.
Ela não esperava que Sr. Marques voltasse em apenas três dias.
Aquilo era muito mais urgente do que havia calculado.
Pelas análises anteriores e pelas poucas informações que conseguia arrancar de Amália, ela presumia que aquele enigmático Sr. Marques ainda demoraria bastante para terminar os assuntos no exterior. Nunca imaginou que ele resolveria tudo tão depressa e voltaria tão cedo para a Vila das Nuvens Cinzentas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias