— Quanto a mim...
Jocelino organizou os pensamentos e voltou a pousar o dedo sobre o mapa, indicando com precisão a posição do Cassino Noite de Cristal e de um hotel de luxo nas proximidades.
— O fato de Fabíola ter me entregado o Cassino Noite de Cristal de bandeja parece uma tentativa de aproximação, mas, na verdade, pode acabar sendo a nossa chance de virar o jogo.
— A localização é perfeita. Dali, conseguimos observar parte da movimentação na Villa Atlântica e, ao mesmo tempo, ainda ficamos fora da zona de segurança máxima. É um ponto natural de observação e pode ser transformado numa armadilha para atraí-los.
Um brilho frio e calculista cruzou os olhos de Jocelino.
A família Saramago, e Fabíola em especial, haviam demonstrado interesse demais e pressa demais em atrair “Narciso”, o que por si só já dizia muita coisa.
Além disso, a ligação entre a família Saramago e Sr. Marques parecia sólida, mas escondia uma brecha considerável.
O fato de o pai de Fabíola ser subordinado de Sr. Marques parecia ser algo desconhecido tanto por Edivaldo quanto pela própria Fabíola. E Edivaldo, em particular, já nutria uma forte insatisfação com esse Sr. Marques que havia aparecido do nada.
Foi justamente nesse momento que o surgimento de “Narciso” deu a Edivaldo um fio de esperança e, ao mesmo tempo, ofereceu ao pai de Fabíola a oportunidade perfeita para bajular Sr. Marques.
Considerando o grau de controle que Sr. Marques exercia atualmente sobre a família Saramago, era certo que eles já tinham ajudado a encobrir muitos dos seus negócios sujos e também os das forças por trás dele. Se conseguissem controlar a família Saramago, derrubar Sr. Marques seria apenas uma questão de tempo.
Wallace ponderou em silêncio, acariciando distraidamente o castão trabalhado da bengala, com um olhar pensativo.
Todos ali eram homens inteligentes. Às vezes, não era preciso dizer tudo em voz alta para que o sentido fosse compreendido.
Jocelino queria usar a si mesmo como isca. Por meio da linha visível que era a família Saramago, ele pretendia puxar a linha oculta que levava a Sr. Marques. Era um plano arriscado, mas, se funcionasse, seria um golpe certeiro, poupando-os de continuar tateando pela Vila das Nuvens Cinzentas como cegos.
Wallace falou devagar, confirmando o que havia entendido:
— Quer dizer que você pretende usar a família Saramago como trampolim para fazer o próprio Sr. Marques vir atrás de “Narciso”?
— Exatamente. — Jocelino assentiu.
— “Narciso” jamais pode tomar a iniciativa de se aproximar de Sr. Marques. Se fizer isso, a intenção vai ficar óbvia demais e, com a paranoia que ele tem, ele entrará em alerta imediatamente. Precisamos fazer o contrário: deixar que tudo pareça natural.
Décio falou em voz grave:
— Entendido. Sr. Barreto, por favor, tome muito cuidado lá.
— Vou tomar.
Os três passaram quase mais uma hora discutindo os detalhes dos próximos passos.
Cada etapa foi revista repetidas vezes, buscando reduzir os riscos ao mínimo e garantir que tanto o plano principal quanto o plano de contingência pudessem ser executados sem falhas.
Por fim, Jocelino se levantou e foi até a janela.
A noite já avançava, e as luzes da cidade continuavam brilhando intensamente.
Ele se virou e passou o olhar por Wallace e Décio, com uma seriedade que eles raramente tinham visto antes.

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