O Sr. Almeida revirou os olhos em desaprovação enquanto falava, sem entender como tinha acabado com um subordinado tão desajeitado.
— Você mesmo usa métodos brutais, estraga tudo e ainda espera que o suspeito o receba com sorriso no rosto e gratidão?
— Guilherme, você trabalha na polícia há tantos anos e ainda não entende uma coisa tão básica?
O rosto do Sr. Lopes passou do vermelho ao branco, e depois voltou ao vermelho. Ele apertou os punhos com tanta força ao lado do corpo que as juntas ficaram brancas.
Sentia-se injustiçado e, mais do que isso, humilhado.
— Sr. Almeida, eu... eu só fiz isso para concluir a missão o mais rápido possível, pela delegacia...
— Pela delegacia?
Jeremias curvou o canto dos lábios num sorriso sem calor algum.
— Se você é burro, assuma que é burro. Não fique usando a desculpa de que foi “pela delegacia” para justificar tudo.
— Se tivesse um mínimo de inteligência e agido com mais discrição, ainda que ele percebesse depois, desde que não flagrasse na hora, nós não estaríamos numa posição tão passiva agora.
Ele fez uma pausa, passou o olhar pelo rosto ruborizado do Sr. Lopes e depois lançou um rápido olhar ao Sr. Siqueira, que permanecia em silêncio. Seu tom ficou ainda mais frio.
— Até uma coisa tão pequena você fez desse jeito, permitindo que o outro virasse o jogo e nos deixasse sem defesa. E ainda tem a cara de vir até mim para reclamar e choramingar?
— Acho que você passou tempo demais levando uma vida confortável e esqueceu como usar a cabeça.
Aquelas palavras não demonstravam a menor piedade e praticamente não deixavam ao Sr. Lopes nem um resquício de dignidade.
Os demais agentes na sala de monitoramento abaixaram a cabeça por reflexo, fingindo estar concentrados nas telas à frente, sem ousar respirar mais fundo.
O Sr. Lopes ficou imóvel, como se tivesse sido pregado ao chão, enquanto o sangue sumia completamente do rosto.
Seus lábios tremiam, mas ele não conseguia pronunciar uma única palavra.
Ao lado, o Sr. Siqueira parecia querer dizer algo, mas no fim não teve coragem de se intrometer.
— Chega, não vou mais perder tempo com você.
— Então... Sr. Almeida, o que fazemos agora? — perguntou o Sr. Siqueira com cautela.
Jeremias ficou calado por um instante, mantendo o olhar fixo em Jocelino na tela.
— A família Saramago quer resultado. Não disse nada sobre o processo.
Percebendo a confusão dos dois, Jeremias respondeu em tom indiferente:
— Vamos seguir o procedimento. Quando o resultado sair, naturalmente informaremos a eles.
— Mas a forma como chegamos a esse resultado é questão de procedimento interno nosso. Entenderam?
Os dois assentiram apressadamente.
As portas da sala de atendimento já estavam fechadas, deixando apenas Jocelino e o Dr. Moreira lá dentro.
A sala tinha apenas uma mesa e cadeiras simples, e a luz vermelha de uma pequena câmera brilhava discretamente num canto da parede. Era óbvio que alguém também estava ouvindo por trás do espelho.

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