— É verdade, nós fizemos um acordo com a família Saramago.
— Mas, por mais urgência que exista, ele não pode agir de forma tão descarada. Isto aqui é uma delegacia, não a agência de investigadores particulares da família Saramago.
— Se hoje o Faustino consegue “acidentalmente” empurrar e ferir um suspeito no corredor, amanhã será que vai “sem querer” espancar alguém até deixá-lo aleijado na sala de interrogatório?
A voz dele foi ficando cada vez mais grave, enquanto batia o dedo na mesa:
— Experiência?
— Se ele é tão experiente, então menos ainda deveria cometer um erro tão primário.
— Isto aqui é uma delegacia, não o quartel-general de uma facção criminosa.
— Agir sem usar a cabeça, contando só com a força bruta, mais cedo ou mais tarde acaba em desastre.
— Ele agora quer se escorar no tempo de serviço. Se não puxarmos as rédeas agora, quando acontecer algo realmente grave da próxima vez, nem você nem eu vamos conseguir encobrir.
— Vamos aproveitar esta oportunidade para esfriar a cabeça dele e fazê-lo controlar esse temperamento.
— Pronto, não tente mais me convencer. A decisão está tomada.
Vendo que a postura do superior era tão firme, o Sr. Siqueira percebeu que insistir não adiantaria e apenas concordou.
— Sim, Sr. Almeida, entendi.
— Então... eu falo com o Faustino daqui a pouco?
— Fale você com ele.
Jeremias acenou com a mão, suavizando um pouco o tom:
— Fale com calma e explique que isso é para protegê-lo.
— Diga a ele para sair de cena por um tempo, até a poeira baixar.
— Se ele quiser fazer escândalo... diga que a decisão foi minha. Se não estiver satisfeito, mande que venha falar diretamente comigo.
O Sr. Siqueira soltou um sorriso amargo por dentro.
Na prática, aquelas palavras não significavam nada. Como o Sr. Lopes teria coragem de ir bater de frente com Jeremias?
No fim das contas, a raiva acabaria sobrando para ele. O Sr. Siqueira suspirou mentalmente, mas manteve a expressão neutra e apenas assentiu:
— Entendido, Sr. Almeida. E quanto ao advogado...
— Hum.
— Fiança?
Jeremias soltou uma risada fria:
— Suspeito de um caso tão grave de lavagem de dinheiro internacional, envolvendo valores altos, com investigação complexa e ainda por cima sendo de fora. O risco de fuga não é nada pequeno.
Teria de ser louco para libertar Narciso mediante fiança.
— Negue o pedido de fiança.
— Pelo regulamento, vamos mantê-lo aqui pelas quarenta e oito horas completas.
Ele fez uma pausa, ergueu o olhar para o Sr. Siqueira e engrossou o tom:
— Nessas quarenta e oito horas, quero que você o monitore de perto.
— Alimentação, atendimento médico, dê tudo o que ele tiver direito. Não deixe margem para nenhuma falha no procedimento. Mas...
O Sr. Almeida fez uma pausa, inclinou-se levemente para a frente e baixou a voz.
— Com exceção do advogado dele, qualquer pessoa que queira “saber como ele está” ou “demonstrar preocupação”, barre imediatamente.

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