— E lembre-se: qualquer pessoa.
— Inclusive se a família Saramago ligar ou mandar alguém até aqui.
— Diga apenas que o caso está em fase crucial de investigação e que não podemos permitir visitas. Entendeu?
A expressão do Sr. Siqueira ficou séria, e ele endireitou a postura:
— Entendido. Eu mesmo vou organizar a equipe em três turnos para garantir que, nestas quarenta e oito horas, nenhuma mosca estranha entre lá.
— Muito bem.
Jeremias recostou-se na cadeira, parecendo pensativo, enquanto girava distraidamente o cigarro apagado entre os dedos.
— E mais uma coisa... esse Narciso, pelo jeito que fala e age, é completamente calculista. Não deixa pontas soltas.
— O que ele disse hoje ao advogado faz sentido. Aquelas “provas” que a família Saramago nos entregou, você também viu, são rasas demais e não aguentam uma análise mais profunda.
Ele voltou o olhar para o Sr. Siqueira, com uma expressão mais intensa:
— Quero que você encontre alguém de confiança para investigar a fundo, por fora, o passado dele no País A.
— Não dependa apenas do que a família Saramago forneceu. Precisamos fazer nossa própria investigação.
— Levante tudo, principalmente sobre aquele fundo fiduciário da família Rodrigues que ele mencionou. O que é exatamente, de onde vem o dinheiro, como é administrado e se existe algum esquema ilegal por trás.
— E também faça um levantamento de todas as grandes movimentações financeiras antes e depois de ele assumir o Cassino Noite de Cristal. Tanto as transações transparentes quanto as ocultas. Quero tudo detalhado. A família Saramago pode até tentar nos usar como arma, mas nós precisamos manter nosso próprio equilíbrio. Não podemos ser feitos de idiotas, vendidos sem perceber e ainda agradecer por isso.
— Nestes anos todos lidando com essas grandes famílias, você sabe que não é a primeira vez. É verdade que elas têm poder e influência em toda parte, mas, quando resolvem virar as costas, também não demonstram a menor piedade.
— Hoje nos fazem “convidar” o Narciso para “colaborar com a investigação”. Mas, se amanhã algo der errado, ou se o vento mudar, os primeiros a serem jogados aos leões como bodes expiatórios seremos eu e você.
Jeremias fez um gesto com a mão.
O Sr. Siqueira não disse mais nada. Virou-se e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
O escritório voltou ao silêncio. Jeremias permaneceu sozinho, com o olhar outra vez fixo na tela apagada do monitor de segurança, como se ainda pudesse ver ali a figura calma e contida daquele homem.
Narciso estava calmo demais, de um jeito que não combinava com um empresário comum envolvido injustamente numa investigação de crime grave.
Mas, por outro lado, se ele realmente tivesse algo a esconder, deveria ter deixado escapar ao menos alguma falha ao lidar com a polícia e com o advogado.
No entanto, esse Narciso... desde o momento em que foi trazido para cá, interrogado, ferido, até a conversa com o advogado, exceto pela reação um pouco mais alterada no instante em que arrancaram um fio do seu cabelo, manteve uma lógica impecável, emoções estáveis e respostas perfeitas, sem deixar brecha alguma.
Ou ele realmente não devia nada a ninguém.

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