Ou era um veterano com um autocontrole extraordinário.
Jeremias tendia mais à segunda hipótese.
A família Saramago jamais faria tanto esforço por causa de um simples “empresário comum” sem um motivo sólido.
Com certeza havia algo em Narciso que eles queriam... ou algum segredo que desejavam confirmar.
O Sr. Almeida amassou o cigarro que sequer havia acendido e desligou a tela do monitor de segurança.
Enquanto isso, do lado de fora do prédio da delegacia...
Cornélio Moreira, segurando a maleta, atravessou a porta giratória de vidro com passos firmes.
A luz do fim da tarde dourava as bordas do seu terno impecável. Seu rosto ainda mantinha aquela expressão profissional e ligeiramente distante típica de um advogado. Ele fez um breve gesto para o policial que estava de guarda na porta, com uma postura que não era nem submissa nem arrogante.
Ao descer os degraus, caminhou diretamente até um sedã preto estacionado ali perto, abriu a porta e entrou.
A porta se fechou com um baque surdo.
Assim que o carro partiu suavemente, misturou-se em silêncio ao trânsito do começo da noite e logo desapareceu pelas artérias da cidade.
Dentro do carro, a frieza profissional no rosto de Cornélio desapareceu rapidamente, substituída por uma expressão pesada e profunda.
Ele apertou o botão do vidro, e a janela escura subiu lentamente, bloqueando o último feixe de luz do dia.
Cornélio observou com atenção e discrição, pelo vidro e pelo retrovisor, os carros atrás deles e a movimentação ao redor.
Depois de confirmar que não havia nenhum veículo suspeito os seguindo, sinalizou ao motorista para seguir a rota combinada. Eles deram várias voltas pelas ruas da Vila das Nuvens Cinzentas e, só então, seguiram para os fundos de uma modesta loja de rua.
Nos fundos, num quarto discreto, Wallace já esperava havia bastante tempo.
— Sr. Wallace.
Cornélio empurrou a porta e a trancou por dentro. A máscara profissional em seu rosto caiu na mesma hora, dando lugar à apreensão.
— Cornélio, e então? Conseguiu ver o Jocelino?
— Como ele está?
Wallace se levantou de um salto e perguntou depressa.
— Sim, eu o vi. Ele está bem por enquanto. Sofreu apenas um corte superficial no braço, que já foi tratado.
— Como eles ousam agir de forma tão descarada?
Wallace franziu o cenho com força.
A situação estava muito pior do que imaginavam.
No início, acharam que a detenção de Jocelino fosse apenas uma demonstração de força para intimidá-lo.
Mas agora, ouvindo o relato do Dr. Moreira...
As coisas estavam ficando realmente tensas.
Cornélio fechou os olhos, recordando o ritmo e os movimentos dos dedos que Jocelino usara para se comunicar, e falou em voz baixa:
— De qualquer forma, com base nas evidências atuais, as acusações da polícia são infundadas, e as provas não se sustentam. Está claro que estão usando isso como pretexto para pressioná-lo e sondar a situação.
— O Sr. Barreto deduziu que a família Saramago, ou quem quer que esteja puxando as cordas por trás dela, começou a suspeitar da verdadeira identidade dele. Todos esses golpes baixos foram armados para verificar em segredo quem ele realmente é.
Ele abriu os olhos e encarou Wallace:
— Sr. Wallace, aquele fio de cabelo é a nossa maior ameaça.

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