— Sr. Porto, para falar a verdade, foi uma benfeitora por quem eu daria a vida que me pediu pessoalmente para sondar a situação.
— E essa pessoa... é muito importante para ela.
— Benfeitora...
O Sr. Porto pareceu suspirar de novo do outro lado. Seu tom ficou mais denso, quase como o conselho honesto e direto de um velho amigo.
— Wallace, não é de hoje que nos conhecemos. Tem coisas que eu não deveria dizer, mas, em consideração à ajuda que você me deu no passado, vou me meter e te dar um aviso.
— O buraco dessa história é fundo demais. Já deixou de ser um simples caso criminal.
— Embora eu não esteja cuidando diretamente desse cara que você citou, ouvi alguns rumores por aqui.
— O alto escalão... mais de um peixe grande deu a ordem, e a orientação foi muito clara: tem que ser “rápido e severo”, bloqueando qualquer “interferência externa”.
— Está evidente que a intenção é enterrá-lo na cadeia. Quem tentar estender a mão vai arrumar problema direto com gente grande.
— Você sabe como é a Vila das Nuvens Cinzentas. É uma cidade cheia de predadores ocultos, e há pessoas com quem não podemos nos meter.
— Essa situação... é perigosa demais, e não é o tipo de coisa em que um mero delegado sênior como eu possa interferir.
Com a família Saramago monitorando tudo de perto e o próprio chefe assumindo o caso, quem teria coragem de agir por conta própria?
E não era só ele, que era apenas um delegado sênior. Mesmo que fosse o superintendente de polícia, provavelmente pensaria duas vezes.
O caso havia deixado de ser comum. O que estava por trás daquilo era... algo extremamente complexo.
Mudando de ideia, o Sr. Porto preferiu não ser tão ríspido e escolheu as palavras com cuidado.
As palavras dele transbordavam impotência e instinto de autopreservação:
— Vou te dizer a verdade nua e crua, Wallace. No fim das contas, é só o amigo de uma amiga sua.
— Existe uma distância nessa relação. Se fosse um parente próximo, ainda daria para entender arriscar tudo numa jogada suicida.
— Mas correr um risco desse tamanho por alguém assim? Vale a pena? Se der errado, você também afunda.
— Escute o meu conselho. Diga à sua amiga, e diga a si mesmo, para ficarem o mais longe possível dessa bagunça.
— Desculpe incomodar. Descanse um pouco.
— Sim, e se cuide.
O Sr. Porto deu o último conselho e encerrou a chamada.
Raimundo abaixou o telefone, massageou o espaço entre as sobrancelhas e esmagou o resto do cigarro no cinzeiro. Seu rosto estava tenso. A situação era muito pior do que ele previra.
Pelo visto, o caminho por meio do Sr. Porto era um beco sem saída.
Ele pesou as opções. Bater de frente com o “alto escalão”, de quem nem mesmo o Sr. Porto ousava se aproximar, por causa do “amigo de uma amiga”, era um risco brutal. A chance de sucesso beirava o zero, e ele ainda poderia arrastar a si mesmo e toda a Thelxinoe do Litoral para o fundo do poço.
Pensando assim, era de fato um negócio terrível.
Mas Raimundo também não era um homem ingrato. Se pudesse ajudar, ajudaria; se não houvesse jeito, também não poderia fazer milagres.
De qualquer forma, precisava relatar a situação exatamente como ela era para Aeliana.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Despertar Depois dos 1460 dias