O pai ergueu os olhos e fixou o olhar no rosto do filho.
Depois da explosão de raiva, seu olhar agora carregava um leve tom de avaliação.
— Eu... agora há pouco...
A voz dele soava um pouco seca. Ele fez uma pausa.
— Te dei uma bronca daquelas sem pensar duas vezes e fui duro nas palavras.
— Você... não guarda rancor de mim, guarda?
Edivaldo se surpreendeu com a pergunta e imediatamente balançou a cabeça. Sua expressão era sincera, com um leve toque de autocrítica.
— Pai, como eu poderia guardar rancor do senhor?
— O que o senhor disse estava certo.
— Eu... realmente errei agora há pouco.
— Mesmo sabendo que a Fabíola é pavio curto e não suporta provocação, eu insisti em dizer aquelas coisas, só colocando mais lenha na fogueira.
O tom de Edivaldo era sincero, sem o menor vestígio de falsidade.
— Eu também tenho culpa nessa história. Não percebi os riscos a tempo, não consegui impedi-la e, quando o problema apareceu, a primeira coisa que fiz foi tentar me esquivar... O senhor fez muito bem em me dar aquela bronca.
O pai observou o filho e constatou que ele realmente não guardava ressentimento pelas palavras duras e impulsivas que ouvira.
O nó de angústia e decepção causado pela rebeldia da filha afrouxou um pouco.
O pai assentiu, satisfeito.
Menos mal. Embora o filho tivesse as próprias ambições e calculasse seus passos, pelo menos sabia refletir sobre os erros e aceitar uma crítica dura. Ele não havia sido mimado a ponto de perder totalmente a noção das coisas, como a irmã.
O pai então pegou o copo d’água.
No entanto, não bebeu. Apenas o segurou, sentindo o calor suave e reconfortante na ponta dos dedos.
Ficou em silêncio por um momento antes de dizer devagar:
— ... Falando nisso, também não podemos colocar toda a culpa nela.
— Ela é impulsiva demais, não escuta conselhos e não tolera provocação. Principalmente quando é contrariada, parece que o cérebro dela desliga.
O pai pousou o copo d’água e se inclinou levemente para a frente, demonstrando uma paciência renovada para orientar o filho.
— Edivaldo, olhe para a situação atual da Vila das Nuvens Cinzentas. Na superfície, tudo parece bonito e próspero, mas quantas correntes ocultas se movem por baixo? As facções estão todas entrelaçadas. O aliado de hoje pode ser quem te apunhala pelas costas amanhã.
— A família Saramago parece estar bem por enquanto, mas quem sabe se amanhã ou o inesperado não chega primeiro? Um passo em falso, e estaremos arruinados.
— Em tempos assim, precisamos ser ainda mais cautelosos e agir com discrição. Não há espaço para fazer as coisas por puro capricho.
Ele falou de forma extremamente lenta e incisiva, e cada sílaba ressoou com força no coração de Edivaldo.
Edivaldo endireitou as costas por instinto, e sua expressão se tornou séria.
O pai olhou para ele, como se estivesse tomando uma decisão definitiva.
Refletiu por um momento antes de enfim tocar no assunto que vinha rondando sua mente:
— Sobre o que aconteceu desta vez... se não fosse pelo alerta do Sr. Marques, não teríamos conseguido estancar a sangria a tempo, e um desastre ainda maior teria acontecido.

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