Ao longo dos anos, Adélia também lhe dera muitos presentes: cintos, relógios, garrafas térmicas...
A primeira gravata que usou no trabalho havia sido um presente dela. Na ocasião, ele achou a cor extravagante demais e se recusou a usar. Ela insistiu e implorou até que ele cedesse.
Todos os presentes que ela lhe dera também eram guardados por ele com grande carinho.
Emanuel contemplou a fotografia por um longo tempo, massageando a testa instintivamente, e então a devolveu ao lugar.
— Por que voltou tão cedo do encontro hoje?
O homem sentou-se com naturalidade no sofá, escolhendo seu canto favorito. Ele não sabia qual aromatizador Adélia usava, mas as almofadas recendiam a um perfume doce e sutil, altamente inebriante.
— Jantamos e eu logo vim embora. Tenho que trabalhar amanhã cedo. — Adélia respondeu com o olhar baixo e um tom brando.
— Entendo. — Ele assentiu. — Eu ia te chamar para jantar, mas como já comeu com o Rafael, deixa pra lá.
Adélia paralisou; havia algo de enigmático em suas palavras, a ponto de fazê-la questionar se ouvira direito. No entanto, ao observá-lo com mais atenção, seu semblante permanecia mergulhado em um gelo implacável. Ele continuava sendo a lua distante no céu: por mais que ela ficasse na ponta dos pés e esticasse os braços, jamais conseguiria tocá-lo.
Ela sabia que não deveria dar-lhe trela. Contudo, ele havia surgido na noite gélida, com fome e os cabelos negros desgrenhados caindo sobre a testa, transmitindo uma imagem de certa solidão.
— Ainda sobrou um pouco de comida na geladeira. Vou preparar uma sopa de macarrão para você. — Adélia suspirou.
Em seguida, ela foi até a cozinha, ligou o fogão e colocou o macarrão na água.
Quando Emanuel se aproximou, viu que ela estava de costas, picando cebolinha.
A mulher vestia um pijama felpudo, com o cabelo preso num prendedor. Algumas mechas caíam rentes ao rosto limpo de qualquer maquiagem, enquanto seus dedos claros e delicados trabalhavam na cebolinha.
Com as mãos nos bolsos e erguendo de leve os olhos frígidos, Emanuel sentiu que aquela cena transbordava uma beleza aconchegante.
Aquele instante dissipou a exaustão acumulada na discussão que tivera mais cedo com Janaína.
Após um longo dia de trabalho, ele estava esgotado.
Porém, ao observar Adélia atarefada na cozinha, o vinco tenso em sua testa finalmente cedeu.
Enquanto cozinhava, Adélia sentiu-se desconfortável com o olhar fixo dele. Chegou a desconfiar que ele talvez soubesse de alguma coisa.
De repente, o homem quebrou o silêncio.
— Me dê seu celular.
Sem pensar duas vezes, Adélia tirou o aparelho do bolso e o entregou.
Num piscar de olhos, viu Emanuel abrir o seu WhatsApp.
E fixar a conversa dele no topo da tela.
— Assim, você não terá como ignorar minhas mensagens. — Emanuel ergueu o celular e lhe lançou um sorriso disfarçado.
— Você anda ingrata demais comigo, hein? Já esqueceu como eu sempre cuidei de você?

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