O olhar de Emanuel escureceu de repente, e seu pomo de adão moveu-se duas vezes. Ele desviou o olhar rapidamente, enquanto seu polegar pressionava a palma da mão de forma inconsciente.
Por um instante, uma imagem íntima e inapropriada atravessou sua mente.
Emanuel voltou para a sala de estar.
— Adélia, lave minhas roupas para mim.
Adélia entrelaçou os dedos, nervosa.
Desde a época do ensino médio, Emanuel sempre pedia que ela lavasse suas roupas à mão e, depois, as levasse até a casa dele.
Ele costumava dizer que gostava do cheiro do sabão em pó que ela usava.
O homem correu os olhos pela sala.
— Achei que você estivesse namorando e escondendo alguém aqui dentro. Por isso não queria me deixar entrar.
Sua voz distante carregava um leve tom de provocação.
— Ainda sem namorado?
— Hum...
Adélia murmurou em concordância. Não sabia definir o que sentia, mas tinha consciência de que lhe faltava feminilidade.
Ele deu um leve sorriso e não prolongou o assunto.
— E sobre fingir interromper o casamento, já pensou no assunto?
Ao se virar, ela viu Emanuel encostado no sofá. Ele massageava o espaço entre as sobrancelhas com exaustão. Com dois botões da camisa branca desabotoados e as pernas longas, perfeitamente proporcionais, envoltas em calças de alfaiataria, sua presença fazia a sala de estar parecer minúscula.
O aroma suave do incenso no ambiente o fazia relaxar. Ele gostava daquele cheiro; de algum jeito, o aroma lembrava a presença tranquila de Adélia.
Adélia colocou o sobretudo dele na máquina de lavar e jogou uma cápsula de sabão líquido.
Seu coração sangrava. Durante todos aqueles anos como sua amiga íntima, ela havia resolvido inúmeros problemas amorosos para ele.
No passado, para provocar Janaína quando ela foi para o exterior, Emanuel arrumou uma nova namorada. No fim, foi Adélia quem lidou com as consequências do término.
Sempre que acontecia algo com Janaína, ele ligava para Adélia, pedindo que fosse cuidar dela.
Adélia ergueu a cabeça, fingindo que estava tudo bem, e sorriu para ele.
— Tudo bem, eu te ajudo.
Seria a última vez que o ajudaria.
Ela pensou consigo mesma.
Afinal, já passava da hora de procurar um encontro às cegas e se casar.
Emanuel se aproximou e afagou a cabeça dela.
— Adélia, sinto muito pelo incômodo. Quando chegar a hora, me peça o que quiser, não hesite.
O toque quente de sua mão fez com que as memórias viessem à tona de uma só vez. O aroma familiar e gélido que emanava dele invadia suas narinas, fio a fio.
Adélia, no entanto, esquivou-se. Depois de adultos, o abismo entre os dois só aumentava. Ela já não podia mais depender dele como antes.
Emanuel franziu a testa.
Mas o traço de insatisfação em seu íntimo foi rapidamente ignorado.
Ele se lembrou de algo e, parado em frente à luminária de chão, lançou-lhe um olhar penetrante.



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