Ele fechou os olhos e, um tempo depois, ao abri-los novamente, piscou sem forças.
Ele soltou Eduarda, voltou a se esparramar no sofá, pegou uma garrafa de bebida em cima da mesa com um movimento casual e deu um grande gole.
“Não há como ser impossível”, pensava Cícero. “Não há como. Com certeza ainda existe uma chance.”
— Eduarda, eu bebi demais, e você também não está tão lúcida. A conversa que acabamos de ter foram só devaneios de bêbado, não conta — Cícero continuou bebendo, com os olhos vidrados em um ponto qualquer da mesa. — Tudo isso não conta.
Vendo Cícero bebendo desanimado, como se estivesse sem energia vital, e ainda dizendo coisas desse tipo, Eduarda também perdeu a vontade de continuar discutindo no mesmo instante.
— Você que sabe.
Após largar essa frase, Eduarda virou as costas e foi em direção à porta.
Com o barulho de uma batida seca, Eduarda deixou Cícero isolado atrás de si de uma vez por todas.
Ela não tinha cabeça para ficar se envolvendo com as questões emocionais de Cícero. Para ela, já não havia mais oportunidades com ele há muito tempo.
E se ainda estavam juntos, era apenas por aquela única coisa inacabada, como uma forma de retribuir a Franklin por todo o bem e todos os sacrifícios que ele fez por ela antes de ir embora; senão, ela já teria abandonado este lugar há muito tempo.
Depois que Eduarda deixou a casa de Cícero, voltou ao estúdio para pegar seu carro e depois foi até a casa de Evandro Castro. Ela queria ver como estavam Elisa e Wilmar.
Ao ver Eduarda, os olhos de Elisa também se encheram de preocupação.
— Eduarda! Você está bem? Como estão os machucados? Eu estava justamente pensando em ir te ver hoje, mas não esperava que você viesse direto pra cá — perguntou Elisa, com ansiedade.
Eduarda sorriu e balançou a cabeça: — Não foi nada grave, não se preocupe. Mas e você, e o Wilmar, como estão?
Elisa suspirou: — Eu até que estou bem. Mas a criança ficou muito assustada e tem estado um pouco atordoada desde ontem. Só consegui fazer ele dormir um pouquinho agora, mas não deve ser nada grave. O médico disse que, com o tempo, as coisas vão melhorar.
Eduarda acompanhou o suspiro.
— Quem sabe, quando sobrar um tempinho, você leva o Wilmar para passear e descontrair. Talvez a criança fique um pouco melhor se a atenção for direcionada para outras coisas.
Elisa concordou: — O médico também sugeriu isso, então eu estava pensando: que tal eu levar o Wilmar para o exterior primeiro, para a França? Lá seria mais seguro também. O Evandro também concorda.
— É uma boa — concordou Eduarda. — Pode ser que algo aconteça no futuro. É bom vocês irem o quanto antes. Quando a poeira abaixar, vocês voltam. Eu tenho uma amiga que conheço na França que pode me ajudar a cuidar de vocês. Ela também tem filhos pequenos, e você pode fazer o Wilmar fazer amizade com eles.
Elisa nem sabia como agradecer a Eduarda.
— Muito obrigada mesmo, Eduarda. Se não fosse por você ontem, não sei o que teria sido da gente. Ainda fico apavorada só de pensar nisso.
O seu caminho no futuro dependia totalmente de cada escolha que fizesse no presente.
Eduarda olhou para Elisa e perguntou lentamente:
— Só preciso ser fiel a mim mesma. É só isso?
Elisa sorriu suavemente: — Sim. Não importa a quem você deva desculpas, tem que ser fiel ao seu próprio coração. Mesmo que não saiba a resposta no seu coração agora, vai saber um dia. Não tenha pressa, o seu coração vai te dar a resposta.
As palavras de Elisa deixaram Eduarda imersa em pensamentos.
Foi nesse momento que Evandro veio carregando um prato de frutas e o colocou na frente das duas.
— A Eduarda chegou! Está tudo bem? Ainda bem que não foi nada grave. Você nem imagina o jeito que o Cícero ficou ontem quando soube que você estava em perigo. O Grupo Machado estava licitando um projeto multibilionário para o qual estava se preparando havia vários anos, o Cícero estava participando de uma reunião e, quando ouviu que você corria perigo, largou a reunião e saiu no mesmo instante. E, por causa disso, os velhos lá da empresa estão pegando no pé dele. Eu bem disse que dava conta do recado, mas o Cícero teimou e não deu ouvidos. Ele estava assustador, juro. Fiquei chocado de ver... Ele estava inacreditável, pra falar a verdade.
Ao ouvir isso, os olhos de Eduarda congelaram de repente.
O Cícero não era aquele cara que colocava o lucro acima de tudo? As emoções nunca atrapalharam os seus objetivos.
Como ele pôde chegar a esse ponto por causa dela?

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