Eduarda o observou por um momento antes de desviar o olhar.
— De quanto tempo você precisa para contatá-lo? — ela perguntou.
Cícero parou o carro no sinal vermelho:
— Depende de você. Pode ser na hora que preferir.
Eduarda não tinha motivos para duvidar da capacidade dele.
— Quero vê-lo amanhã de manhã.
— Sem problema. Mas... — Cícero hesitou por um segundo e continuou. — O Augusto não é fácil. Ele não costuma se encontrar com qualquer pessoa. Eu vou com você amanhã, aí com certeza ele vai comparecer.
Ela respondeu, num tom indiferente:
— Obrigada, Sr. Machado. Vou usar da sua influência.
Era nitidamente uma provocação. Cícero não respondeu, mas sentiu uma pontada de dúvida.
— Por que quer se encontrar com ele? O Augusto Barbosa é a pessoa mais excêntrica de Porto de Safira, quase ninguém consegue se aproximar dele, e os Barbosa não costumam ter muito contato com...
— Os Barbosa?
Num instante, Cícero pareceu entender.
Ele virou a cabeça para olhar para Eduarda, chocado:
— Você e o Augusto... Vocês são...
Ela deu um sorriso amarelo:
— Talvez sim, talvez não. Só vou saber quando encontrá-lo.
— Então você só foi visitar sua mãe para perguntar sobre isso, e ela te deu a resposta.
— Não. Ela só me xingou de tudo que é nome.
— Você...
— Esquece. Não quero falar sobre isso. Você ainda vai pro hospital? Se for, pode me deixar aqui. Quero voltar e descansar. — Eduarda inclinou a cabeça, sem vontade de pensar naqueles assuntos irritantes.
Cícero balançou a cabeça:
— Não é nada. Estou meio cansada, vou subir.
Ela não ouviu mais nada, apenas virou as costas e subiu as escadas.
Cícero acompanhou-a com o olhar, o coração apertado de ansiedade.
Eduarda foi para o quarto, mas não acendeu a luz. Sentou-se na varanda, deixando-se engolir pela escuridão da noite. Olhando para o céu nublado, mergulhou mais uma vez em seus pensamentos.
Ela ainda não tinha certeza se era mesmo a irmã biológica de Augusto, como o Sr. Adilson havia afirmado. Ela sequer conhecia o homem. A ideia de ter um parente de sangue com quem nunca tivera qualquer contato parecia um vínculo ao mesmo tempo surreal e fascinante.
Por outro lado, não havia motivos para o Sr. Adilson mentir, muito menos deitado no leito de morte. Não faria sentido algum, ainda mais sendo algo ligado diretamente à vida dela.
Ela pegou um copo de água ao seu lado, mas percebeu que estava vazio. Sem vontade de se levantar para enchê-lo, apenas o largou de volta.
Uma coisa não fazia sentido para Eduarda. Se ela era irmã do Augusto, como foi parar na casa de Teresa Amorim, transformada numa irmã mais velha que só existia para ser sugada pelo Givaldo Barbosa desde o momento em que nasceu?
Será que durante todos esses anos o Augusto alguma vez pensou em procurá-la? Se sim, por que não a encontrou?
Várias perguntas começaram a surgir em sua mente, deixando seus pensamentos caóticos e fazendo sua cabeça doer.
Ela levantou-se, decidida a não pensar mais em nada. Entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Quando a água quente escorreu pelo seu corpo, ela finalmente conseguiu esvaziar a mente. Só pensaria nisso amanhã, depois que eles se encontrassem.

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