Roberto riu e disse: — Por que a pena de repente? Você não era assim antes, não é?
Cícero respondeu: — Não entendi o que o senhor quis dizer. A Eduarda ainda é a minha esposa. Se eu não devesse protegê-la, a quem deveria proteger?
— Chega! Por que essa briga?! — A repreensão de Adilson foi suficiente para fazê-los parar. — Se continuarem discutindo, vão brigar lá fora!
O silêncio tomou conta da sala de estar instantaneamente.
Adilson perguntou novamente: — Diga-me, sobre o que estavam discutindo lá fora?
Tendo raramente a chance de se aproveitar de uma oportunidade como aquela, Roberto pegou as "provas" que havia trazido e as entregou a Adilson.
O administrador da casa entregou-lhe os óculos, e Adilson começou a olhar atentamente para os relatórios na sua frente.
— Pai, não é que eu queira falar do Cícero, mas o senhor sabe muito bem que o projeto que conseguimos é o novo projeto ecológico e comercial mais importante do país. Não é apenas o projeto número um do Grupo Machado, mas também o que está sob os olhos do governo. E olhe como isso acabou.
Cícero não demonstrou nenhuma reação alarmada. Apenas respondeu pacientemente: — Tio Roberto, como eu já disse, essas aprovações não passaram por mim. Eu estava hospitalizado na época, como poderia ter tomado alguma decisão?
— É fácil falar! Você acha que vai escapar da culpa com essas palavras?! — Roberto zombou. — Quem é o principal responsável deve ser responsabilizado em caso de problemas. Você não deve ignorar isso, não é? Preciso repetir, Cícero? Já que está nessa posição, deve assumir as responsabilidades.
Roberto olhou para Adilson e continuou: — Pai, agora o projeto deu problema. É perfeitamente normal eu pedir ao Cícero que assuma a responsabilidade, não é? Ou teremos que pagar pelos erros de decisão dele?!
— O que você quer, então? Fale — perguntou Adilson.
Roberto respondeu com tom justo: — Claro que o próprio Cícero tem que resolver esse furo. Não podemos paralisar esse projeto de jeito nenhum, senão a perda diária será o dobro do custo e nosso fluxo de caixa sofrerá um forte impacto.
— O que você acha, Cícero? Alguma ideia?
Cícero não respondeu à pergunta de Adilson; em vez disso, olhou para Roberto e disse: — Tio Roberto, o que o senhor acha que eu deveria fazer? Sou jovem, não tenho a sua experiência para lidar com essas coisas. Espero que o senhor me ilumine com a sua sabedoria.
Roberto riu. As palavras de Cícero eram música para os seus ouvidos, como se ele estivesse caminhando por conta própria para a armadilha.
— Afinal, trata-se de um problema da empresa, então não sugiro que use outros métodos. Que tal vender parte das suas ações para terceiros? Isso aliviaria a sua situação de imediato, já que é impossível conectar fornecedores de matérias-primas de tão grande volume num período tão curto de tempo.
Cícero deu um sorriso de leve.
Ele mordeu a isca direitinho.
Após ver o documento, Adilson esbravejou: — Desgraçado!
Roberto, como se tivesse acordado de um tapa, entrou em pânico e tentou se justificar rapidamente: — Pai! Escute, não tenho nada a ver com isso! Foi o chefe do departamento de marketing! Foi ele quem fez isso, eu não sabia, pai!
— Roberto! Você está querendo me matar de raiva?! Chegar a esse ponto para prejudicar o Cícero! Você ainda tem algum carinho por essa família no coração?!
O que Adilson mais odiou na vida foi traição, fosse de um estranho, fosse de sua própria família; era algo imperdoável para ele.
O que Roberto havia feito eliminou qualquer resquício de compaixão que Adilson poderia ter por ele.
Roberto já estava irritado em seu íntimo. Ele havia ido com a intenção de delatar Cícero para Adilson, mas em vez disso acabou caindo na armadilha do próprio Cícero, o que o deixou tomado por uma raiva incontrolável.
— Pai! De qualquer modo, o responsável pelo projeto é o Cícero. Mesmo se eu errei ao tomar uma decisão, a responsabilidade principal não recai sobre mim! Não pode ser tão injusto! Eu sei que o senhor o protege, mas eu também sou o seu filho, o senhor não deveria pensar em mim?!
Adilson quase vomitou sangue: — Você! O que está dizendo?!
— E eu estou mentindo?! Só por ele ser filho do Ricardo Machado o senhor o trata com favoritismo! Nunca me considerou como seu filho no seu coração. Sempre reprovou o que eu queria fazer e dava tudo o que o Cícero queria! Isso tudo devia ser meu!

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