Isabela Moretti não estava procurando nada.
Nem distração.
Nem romance.
Nem companhia.
Ela ainda aprendia a existir dentro da própria rotina — os horários novos, o trajeto diferente até o trabalho, o silêncio que agora não machucava mais. Tudo era recente demais para ser preenchido por expectativas.
O convite veio de onde ela menos esperava.
— A gente vai sair hoje depois do expediente — disse Clara, a colega da mesa ao lado, enquanto fechava o computador. — Nada demais. Só um barzinho perto daqui. Você devia ir.
Isabela hesitou.
Não por medo.
Por hábito.
— Acho que vou passar — respondeu, educada. — Ainda estou me organizando.
Clara a observou por um segundo a mais do que o necessário. Não com curiosidade invasiva, mas com aquela leitura silenciosa que algumas mulheres sabem fazer sem esforço.
— Você acabou de chegar na cidade, né? — comentou. — Às vezes sair ajuda a cidade a deixar de parecer estranha.
Isabela sorriu de leve.
— Talvez — disse. — Mas não prometo ficar muito.
— Ninguém fica muito — respondeu Clara, piscando. — Só o suficiente.
No fim do expediente, Isabela se viu caminhando com o grupo pela calçada iluminada, sentindo algo que não sentia havia dias: leveza sem culpa.
O bar era simples. Luz baixa. Conversas cruzadas. Música em volume confortável. Nada que lembrasse a vida antiga. Nada que exigisse performance.
Isabela se sentou à mesa, pediu uma bebida sem álcool e ouviu histórias que não a envolviam. Riu quando foi natural. Ficou em silêncio quando quis.
Ninguém cobrou explicações.
Foi então que percebeu a presença dele.
Não como alguém que invade.
Mas como alguém que simplesmente estava ali.
Sentado duas mesas à frente, conversando com amigos, ele tinha um jeito tranquilo. Não observava demais. Não parecia medir o espaço. Apenas existia.
Em algum momento, os olhares se cruzaram — brevemente. Um reconhecimento neutro. Um aceno discreto de cabeça. Nada além disso.


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