Hortência sentiu um frio na barriga diante daquela situação hostil, mas forçou uma postura de calma ao perguntar: — Tia Iracema, o que está acontecendo? Por que vocês estão todos aqui?
— E você ainda tem a cara de pau de perguntar? Você mandou a gente ir atrás daquela mulher, mas não avisou que a gente não podia invadir a empresa dela! Ela processou todo mundo, e agora estamos presos aqui esperando a decisão de um juiz!
— Eu tenho a minha casa para cuidar! Se o pessoal do interior descobrir que eu fui presa, como é que eu vou sair na rua de cabeça erguida?
A tia Iracema estava com as mãos na cintura. Embora estivesse se lamentando, a postura agressiva e escandalosa não despertava a menor empatia.
— Eu... Tia Iracema, isso não é verdade. Quando foi que eu mandei vocês irem até lá? — Hortência negou até a morte. Ela não admitiria sua culpa sob hipótese alguma.
O coração dela estava afundado em irritação. Mentalmente, amaldiçoava a incompetência daquela laia. Tanta gente reunida para infernizar a vida de Glaucia, e no fim das contas, todos vieram parar na cadeia.
Como se não bastasse a burrice de não conseguirem acabar com Glaucia, ainda queriam arrastá-la para a lama junto com eles. Que bando de idiotas.
— Ah, não vem com esse papinho para cima de mim! Ontem você veio cheia de conversa fiada, fazendo a coitada, só para a gente comprar a sua briga!
— Escuta aqui: se a gente está nesse inferno, a culpa é sua, e você não vai pular fora.
— Você não é a grande senhora da família Pires agora? Se você está presa aqui, eles com certeza vão vir te buscar. E quando vierem, você vai levar a gente junto. Se a gente não sair, você também não sai!
— Isso mesmo! O que a Iracema disse é lei! A gente só se ferrou por sua causa, você não pode abandonar a própria família.
— Ou tira todo mundo, ou morre todo mundo aqui dentro.
Assim que Iracema deu o primeiro disparo, o resto dos parentes começou a atacá-la como um enxame enfurecido.
As acusações vinham rápidas e sobrepostas, não dando a menor chance de Hortência se defender.
Ela finalmente percebeu: aquelas sanguessugas haviam grudado nela de vez e não a soltariam até conseguirem o que queriam.
Só então, um pânico gélido e paralisante tomou conta de Hortência.
Fabiana sempre teve o hábito de espancar Hortência desde a infância. Diante dela, o instinto de submissão de Hortência a impedia de reagir. Em questão de segundos, ela estava coberta de novos arranhões e hematomas.
Os parentes da família Galvão apenas assistiam, com expressões de quem não tinha nada a ver com o assunto. Ninguém moveu um músculo para separar a briga.
Foi essa a cena que Tadeu encontrou quando finalmente chegou: o rosto de Hortência, que mal havia cicatrizado, agora estava marcado por novas feridas.
Ao ouvir os passos dele, toda a corja da família Galvão, liderada por Fabiana, cravou os olhos em Tadeu como hienas encarando um pedaço de carne fresca.
Aquele tipo de olhar fez o estômago de Tadeu revirar de nojo e irritação.
Hortência também o notou. Com os olhos marejados e o rosto coberto de lágrimas, ela se arrastou até ele, assumindo a mais pura postura de vítima: — Tadeu... você finalmente veio me buscar. Eu não aguento mais ficar aqui. Por favor, me tira desse lugar.
Dois botões da sua camisola haviam sido arrancados durante a agressão, revelando quase todo o colo nu. Seu rosto, sem qualquer maquiagem, estampava arranhões e marcas de dedos, envelhecendo-a ainda mais sob aquela luz fria e miserável.

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