Bernardo ignorou e concluiu seu raciocínio:
— Quando isso acontecer, não poderá me culpar por não ter feito nada, entendeu? Afinal, quando alguém perde a vontade de viver, nem os deuses conseguem salvar.
Cora arfava sem parar, atordoada pelas palavras de Bernardo.
Bernardo apenas a observava, completamente impassível.
Ninguém imaginaria que, um segundo atrás, os dois estavam se beijando.
E no segundo seguinte, Bernardo enfiaria uma faca em Cora sem hesitar.
Direto no coração.
Cora levou muito tempo para se recuperar daquelas palavras:
— Bernardo, qual a graça de me pressionar assim?
— Tem muita graça. — Bernardo realmente respondeu. — Porque agora tudo que eu quero é ver você abaixar a cabeça e me implorar. Talvez, se eu gostar do que ver, eu diga algumas palavras doces e deixe as coisas saírem do seu jeito.
Aquelas palavras soaram carregadas de deboche.
Parecia até que ele havia colocado a decisão nas mãos de Cora.
Porém, Cora sabia melhor do que ninguém que não tinha escolha alguma.
A menos que desistisse de Nicolas, o que era impossível.
— Cora. Eu te paparicando, não é o que você mais quis todos esses anos? — Bernardo se curvou, falando com um tom de pena e caridade.
Apesar de suas palavras, o olhar de Bernardo era afiado como uma lâmina.
Sob tantas camadas de opressão, Cora finalmente se curvou:
— Bernardo, eu te imploro...
Bernardo zombou, sem um pingo de cortesia:
— Cora, o seu jeito de implorar não desperta nenhum desejo. Falta sinceridade, sabia?
Cora ficou constrangida.
Ela o encarou de forma passiva, lembrando-se da última vez em que implorou a ele.
Deplorável, humilhante e, acima de tudo, doloroso. Uma dor que perfurava os ossos.
Naquela ocasião, ela havia sofrido uma hemorragia intensa, quase perdendo o bebê que carregava.
— Cora, você me forçou a aceitar as suas exigências usando as ações, me impedindo de ir atrás dela. Então você não previa que hoje as coisas chegariam a esse ponto? Isso é o que você merece suportar, entendeu?
Cora não disse mais nada.
Ela permaneceu onde estava, olhando teimosamente para Bernardo, incapaz de proferir uma única palavra de submissão.
Contudo, devido à forte carga emocional de sua discussão com Bernardo, começou a sentir uma dor incômoda no baixo ventre.
Num piscar de olhos, percebeu um fluxo quente escorrendo entre suas pernas.
Ela vestia uma saia bege, e o sangue manchando o tecido era uma cena alarmante.
As cólicas vinham em ondas torturantes.
Instintivamente, Cora protegeu a barriga, sua testa coberta de suor.
Bernardo também foi pego de surpresa pela cena.
Ele praguejou baixinho e, sem pensar duas vezes, tomou Cora nos braços.
Ele não podia permitir que algo acontecesse ao bebê que Cora carregava.

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