Quando Nicolas saiu em sua cadeira de rodas e viu Bernardo, ele o chamou alegremente:
— Bernardo!
— Hum. Já acordou? — Bernardo conversava com Nicolas em um tom calmo e tranquilo.
— Você está preparando o café da manhã? Você é muito bom para a minha irmã. — Nicolas disse, com o coração cheio de alegria.
Bernardo apenas assentiu, sem nem tentar negar.
Os dois continuaram conversando de forma descontraída.
A capacidade mental de Nicolas agora era equivalente à de um adolescente, e ele sempre tinha uma infinidade de perguntas.
Mesmo assim, estava visivelmente muito mais radiante do que antes.
Foi essa a cena que Cora encontrou ao descer as escadas.
Ela parou imediatamente, com um olhar de total descrença.
Então, não havia sido uma alucinação. Bernardo realmente havia passado a noite ali.
Observando a forma como ele interagia com Nicolas, cheio de paciência e até mesmo o mimando, uma sensação incômoda tomou conta dela.
Para ela, Bernardo era um poço de hipocrisia.
Mas ela sabia perfeitamente bem que era justamente essa hipocrisia a sua maior arma.
Ele conseguia ocultar toda a sua crueldade sem deixar nenhum rastro.
Fazendo com que todos acreditassem que ele era uma pessoa inofensiva.
Porém, quando ele decidisse atacar, a vítima já não teria a menor chance de revidar.
E essa era uma habilidade que Cora nunca conseguiria aprender ou replicar.
Mesmo assim, por causa de Nicolas, Cora precisava continuar atuando ao lado dele, interpretando o papel de uma esposa profundamente apaixonada.
Tudo porque não queria que o irmão se preocupasse.
Cora mordeu levemente o lábio; o desconforto e a aversão transbordavam de suas feições.
Era como se ela estivesse presa dentro de uma gaiola sem saída.
— Cora, você acordou! — Ao notar a presença de Cora, Nicolas gritou com entusiasmo.
Cora forçou o olhar em direção ao irmão e, com um sorriso artificial, escondeu todas as suas frustrações.
O olhar de Bernardo também recaiu sobre ela, carregado de uma intensidade oculta.
Sua voz não demonstrava emoção alguma ao dizer:
— Já acordou? Chegou na hora certa, o café da manhã está pronto.
O tom soava tão natural que parecia o de um casal comum, sem nenhum sinal de atuação.
Ouvindo aquelas palavras, Cora ficou estática por um momento.
Era exatamente assim que ela gostava.
Então, Bernardo realmente sabia de suas preferências?
Cora não ousou pensar muito sobre o assunto.
Apenas abaixou a cabeça e comeu em silêncio.
Bernardo não pareceu se importar. Ele pegou seu café preto e um sanduíche, sentando-se logo ao lado dela.
Sentir a presença daquele homem tão perto fez com que Cora ficasse tensa na mesma hora.
Mas, para não alarmar Nicolas, ela tentou esconder ao máximo as suas emoções.
Apenas continuou de cabeça baixa, concentrada na comida.
Enquanto isso, Nicolas não parava de tagarelar com Bernardo, e ele respondia a todas as perguntas com naturalidade.
A pessoa que parecia mais deslocada e desconfortável na mesa era a própria Cora.
Aquela única refeição pareceu arrastar-se por uma eternidade.
Quando Cora finalmente terminou o último pedaço e fez menção de se levantar...
...sua mão foi subitamente segurada por Bernardo.

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