Enquanto isso, Cora olhava para ele sem piscar.
— Isso é uma loucura. — rosnou Bernardo, soltando-a subitamente.
Cora não se importou.
Tudo o que ela viu foi o pulso dolorido e marcado de vermelho pela força dele.
Doía.
Mas essa dor não era nada comparada à dor no coração.
Embora já estivesse acostumada a tudo isso há muito tempo.
— Tá. — ela assentiu levemente, sem tentar contradizê-lo.
Discutir com Bernardo não adiantava absolutamente nada.
Ela virou-se e caminhou para dentro do hospital.
Bernardo permaneceu onde estava, apenas a observando com as mãos nos bolsos, recuperando sua postura indiferente.
Quanto mais ele olhava, mais sombrio ficava o seu rosto.
Pela primeira vez, sentiu que estava completamente no poder de Cora.
Sem espaço algum de manobra.
Quase ao mesmo tempo, seu celular vibrou.
Tocou apenas por alguns segundos antes de ser desligado. Era uma ligação de Adelina.
Bernardo encarou a tela sem qualquer intenção de retornar.
Ele estava testando Adelina, e ela estava o testando.
Aquele que cedesse primeiro, seria o perdedor.
Sem mostrar nenhuma emoção, ele guardou o celular e entrou no hospital de cara fechada.
Cora já havia entrado na sala de ultrassonografia.
Quando Bernardo foi seguir ela, o celular vibrou de novo.
Ainda era Adelina.
Ele ficou olhando a tela.
Com o dedo parado sob o visor brilhante.
Contudo, no momento seguinte, ele voltou a colocar tranquilamente o aparelho no bolso, ignorando-o de forma deliberada.
A vibração persistia; Adelina não havia desligado.
Bernardo queria saber até quando ela suportaria aquilo.
Com passos calmos, ele se dirigiu à sala de exames.
Cora já estava deitada na maca.
Tudo o que restou foi aquele aperto sufocante na garganta, sem resolução.
— É uma menina. — o médico revelou subitamente. — A posição antes dificultava a visualização, mas agora temos certeza.
Bernardo não comentou nada.
Ao pensar em uma menina, ele imaginou que ela talvez se parecesse com Cora.
Ele lembrou de ter visto fotos de Cora quando era pequena. Ela seria adorável e bochechuda, com certeza muito macia de apertar.
Um carinho inexplicável começou a surgir dentro dele.
Contudo, ele não era o tipo de pessoa que demonstrava emoções. Em vez disso, manteve-se calado.
Já Cora, ao ouvir que era uma menina, suspirou aliviada.
Sendo mulher, a criança estaria à margem das lutas por poder dentro da Família Pereira, o que significava que estaria a salvo.
Se a menina não tivesse utilidade estratégica, Bernardo certamente não veria necessidade de mantê-la por perto.
Ambos estavam imersos em seus próprios devaneios.
Até que o médico finalizou o exame.
— Pronto. A próxima consulta será em quinze dias. — avisou ele, sorrindo.
Ele ofereceu lenços de papel para que Cora pudesse remover o gel do ultrassom.
Antes que ela pudesse pegar, Bernardo tirou os lenços da mão do médico.

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