Cora manteve-se em silêncio.
Ela não podia demonstrar fraqueza na frente de Adelina.
Nem deixar que suas emoções ficassem tão evidentes.
Pois aquilo só lhe traria mais problemas.
Diante dessa situação, Cora limitou-se a encarar Adelina, sem piscar.
Adelina não se importou e continuou falando.
— No começo, eu não planejava acabar com a sua raça. Afinal, você não representava nenhuma ameaça para mim.
— Mas agora as coisas mudaram. Eu mudei de ideia. Com inimigos, temos que ser implacáveis para evitar surpresas, não acha?
Cada palavra proferida transbordava pura maldade.
Mas Adelina as pronunciava com a maior naturalidade do mundo.
Cora apenas ouvia, de cenho franzido.
Logo, sua expressão mudou drasticamente.
Porque, assim que Adelina terminou de falar, ela sentiu que de repente havia um canivete na mão da outra mulher.
A lâmina estava apontada na sua direção.
— Adelina, o que você está fazendo?! — perguntou Cora, tentando manter a calma.
Ela não se mexeu; nem sequer tinha coragem de se mover.
Estando grávida, seu maior medo era que Adelina perdesse o juízo e a atacasse sem piedade.
Lá na Lagoa Cristalina, Bernardo podia proteger Adelina.
Mas ali, não havia ninguém para protegê-la.
Portanto, Cora não podia arriscar. Precisava garantir que seu bebê ficasse são e salvo.
— Nós estamos em um lugar público. Se fizer alguma loucura, isso será assassinato. E assassinato é crime. Você é uma figura pública, sabe muito bem quais seriam as consequências. — Cora finalizou com frieza.
Ironicamente, essas palavras apenas fizeram Adelina rir na cara de Cora.
Um sorriso macabro.
Um sorriso que fez todos os pelos do corpo de Cora se arrepiarem.
Pela primeira vez, Cora não conseguia decifrar as intenções de Adelina.
Mas, por puro instinto, ela estava apavorada com a possibilidade de Adelina perder o controle a qualquer segundo.
Então, num movimento brusco, Cora puxou seu braço.
E, no impulso, acabou arrancando o canivete das mãos de Adelina.
Pareceu até que, no exato instante em que Cora tocou na lâmina, Adelina afrouxou os dedos de propósito.
Cora conseguiu pegar a arma sem a menor dificuldade.
Ela olhou para o canivete em suas mãos, totalmente perplexa.
Não esperava que tivesse sido tão fácil.
Por Adelina ser tão magra, era quase possível ver os solavancos da criança se debatendo lá dentro.
Mas, com o espaço restrito e a gravidade do ferimento, era impossível que a criança resistisse.
O rosto de Cora ficou pálido como cera; um frio intenso subiu-lhe dos pés à cabeça.
Seu corpo inteiro perdeu as forças.
Estava coberta de suor frio.
No susto, ela havia deixado o canivete cair, que bateu no chão produzindo um tinido metálico.
A palma da sua mão estava manchada do sangue que havia escorrido da arma.
Cora nunca havia presenciado uma cena tão brutal em toda a sua vida.
Nem em seus piores pesadelos ela imaginaria que Adelina teria a coragem de se esfaquear.
E logo ela, para quem aquele bebê era tão importante.
Aquilo era, sem dúvida, um ato de autodestruição mútua.
Como alguém tão astuta como Adelina poderia cometer tamanha loucura?
Pois, fazendo isso, a criança com certeza não sobreviveria.
Por um instante, Cora ficou paralisada.
O terror a sufocava tanto que até respirar se tornou um sacrifício.

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