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Esposa Temporária:Ele me vê como um nada, mas precisa de mim romance Capítulo 4

Terça- feira

Pov Ana Clara

Relembro com detalhes o meu dia. Cada minuto. Cada decisão ruim. Cada pequena tragédia pessoal que me trouxe até aqui. Até o fatídico acontecimento.

E sinceramente? Não é de se estranhar que eu esteja no fundo do poço.

Não metaforicamente.

Não poeticamente.

No fundo mesmo.

Daqueles fundos em que você olha para baixo esperando encontrar o chão… e descobre que ainda existe outro fundo.

Antes de tudo acontecer, eu estava sentada no chão da cozinha, encostada no armário, com o telefone desligado ao meu lado e uma colher na mão. A colher estava mergulhada dentro de um pote de brigadeiro. Não era brigadeiro para vender. Não era brigadeiro para cliente. Não era brigadeiro gourmet, artístico ou minimamente digno de aparecer no I*******m.

Era brigadeiro emocional.

Fiz para sobreviver psicologicamente.

Acontece.

Respiro fundo.

— Parabéns, Ana Clara — murmuro para mim mesma, limpando o nariz com as costas da mão. — Você conseguiu estragar absolutamente tudo.

A cozinha está um caos. Farinha espalhada pelo chão. Tigelas sujas na pia. Uma forma de bolo esquecida na mesa. Um saco de açúcar aberto como se tivesse sido vítima de um pequeno terremoto culinário. Parece a cena de um crime.

E talvez seja.

O assassinato brutal da minha dignidade profissional.

Fecho os olhos e imediatamente a voz da dona Sônia ecoa na minha cabeça como um pesadelo em replay.

— Você tinha um compromisso comigo!

— Um bolo de casamento não pode atrasar!

— Isso é falta de profissionalismo!

Eu aperto os olhos com força.

— Eu sei, dona Sônia — murmuro para o teto. — Eu estava presente na conversa original. Não precisava da reprise.

O problema não foi só o atraso.

Foi o dinheiro.

Sempre o dinheiro.

— Eu contratei você porque disseram que era responsável! — ela continuou, com aquela expressão típica de quem pagou por um bolo e recebeu uma crise existencial junto.

Eu estava tão nervosa que quase respondi:

"Responsável eu sou. Rica é que eu não sou."

Mas segurei.

Profissionalismo.

Ou pelo menos algo vagamente parecido com ele.

Solto um suspiro longo.

Minha conta bancária está praticamente em coma induzido.

Minha casa está com todas as contas atrasadas.

E aparentemente fazer bolos não paga as contas.

Quem diria?

Porque se você perguntar para qualquer criança de cinco anos, confeiteiros vivem cercados de açúcar, felicidade e dinheiro. Mas aparentemente a realidade é diferente quando você é uma confeiteira que também tenta ser artista.

Pintar é o meu sonho.

O problema é que sonho não paga boleto.

Quadro não paga conta de luz.

Inspiração artística não paga aluguel atrasado.

Então eu faço bolos.

Muitos bolos.

Bolos de aniversário. Bolos de casamento. Bolos temáticos. Bolos com flores de açúcar tão delicadas que deveriam vir com certificado de paciência infinita.

Os bolos pagam as contas.

Ou pelo menos deveriam.

Enfio outra colher de brigadeiro na boca.

— Isso é culpa sua — digo para o doce.

Ele não responde.

Covarde.

Levanto os olhos para o teto.

— Deus, se o senhor estiver me ouvindo… — começo.

Faço uma pausa dramática.

— Não precisa melhorar muito minha vida.

Outra pausa.

— Só um pouco já está ótimo.

Silêncio.

Nada acontece.

Nenhum milagre.

Nenhuma luz divina.

Nenhuma mala cheia de dinheiro.

Nem um bilionário batendo na minha porta dizendo:

"Ana Clara, tome aqui um milhão porque você merece."

Nada.

Só eu.

O brigadeiro.

E a conta de luz vencida.

Respiro fundo.

Minha cabeça começa a latejar.

Talvez seja açúcar.

Talvez seja desespero.

Talvez seja os dois trabalhando juntos como uma equipe altamente eficiente.

Pego o celular.

Erro.

Erro gravíssimo.

Tem três mensagens do banco.

Duas da companhia de energia.

E uma da imobiliária a respeito do aluguel.

Fecho o celular imediatamente.

— Não vi nada.

Empurro o telefone para longe.

Se eu não olhar… tecnicamente os problemas não existem.

Isso é ciência.

Ou pelo menos negação avançada.

Encosto a cabeça no armário.

O cansaço chega como uma onda pesada.

Minha garganta aperta.

E antes que eu perceba, as lágrimas começam a cair de novo.

Droga.

Eu odeio chorar.

Principalmente porque meu nariz fica vermelho e meus olhos incham como se eu tivesse perdido uma luta física com um enxame de abelhas.

Mas hoje…

Hoje está difícil.

Muito difícil.

— Eu não aguento mais — sussurro.

A frase ecoa na cozinha silenciosa.

Passo a mão no rosto.

Uma parte pequena, minúscula e extremamente dramática da minha mente murmura:

“Talvez fosse mais fácil simplesmente desaparecer.”

Ou fugir.

Ou evaporar.

O Universo Me Odeia (Com Provas) 1

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