Isabella
O silêncio pesa como pedra.
O Véu do Sonho recobre toda a alcatéia. Sinto as auras de cada lobo — apaziguadas, adormecidas — pulsando em uníssono, embaladas pelo feitiço que lancei para protegê-los.
Só duas presenças permanecem acordadas: a minha… e a dela.
Lamia surge diante dos portões do pátio interno, vestida em chamas etéreas. O cabelo negro serpenteia ao redor do rosto pálido; os olhos, cor de vinho, cintilam com promessa de morte.
— Você não podia simplesmente esperar — digo, a voz ecoando pelo mármore do pátio. — Sempre quis resolver isso longe de quem amo.
— Carinho inútil — Lamia cospe o destino como veneno. — Quando terminar, não restará nada para amar.
Ergo a mão esquerda. A luz da lua cai sobre mim como véu prateado, mas não convoco Ártemis. Hoje, minha força vem da mulher, não da loba. Faço o sinal lunar sobre o peito; runas fluorescentes escorrem pelos meus braços.
Lamia ergue o bastão de ébano. Fios carmesins partem dele, chicoteando o ar. Cada estalo abre fendas negras no solo. Ela invoca fogo-bruxuleante que ruge como besta.
A batalha começa.
Eu: um arco de pura luz. Curvo os dedos; lâminas lunares dançam ao redor.
Ela: um redemoinho rubro, vibrante de ódio ancestral.
Faíscas se chocam.
Quando meu disco prateado atinge o escudo de sangue, o estrondo quebra estátuas, faz colunas tremerem. Fragmentos de mármore chovem, calcários brilhando como estrelas caídas.
Lamia avança num giro. Garras de energia buscam meu coração. Recuo num salto e lanço palavras antigas que aprendi com Tia Morgana nas noites em que o mundo parecia artefato frágil em nossas mãos. Sílabas ecoam, desenham correntes líquidas no ar; elas se enroscam no tornozelo de Lamia — mas a feiticeira corta o feitiço com um estalar de dedos. Explosão escarlate. Sinto o impacto no peito e sou arremessada contra a parede interna.
— Filha da Lua…? — Ela ri baixo. — Soa bonito demais para quem tombará na própria luz.
Levanto-me, cuspindo poeira e um fio de sangue. O peito arde; o amuleto de prata esquenta.
Fecho os olhos. Lembro-me da profecia que me guiou até aqui.
Somente o coração dela poderá decidir entre ser guia ou ser o fim.
Abro os olhos. A lua reflete em mim como oceano imóvel. Minha magia plasma-se em constelação viva. Orbes cintilantes nascem à minha volta. Cada orbe carrega lembranças: o dia em que conheci Logan; os café da manhã com meus pais; as mãos de Gabriel segurando as minhas; o olhar de Ethan; Ravena e meus irmãos; e meus filhos, a consumação do meu amor por Logan.
Todos dormem… mas vivem em mim.
— Isto é amor, Lamia — digo enquanto as orbes se alinham num anel luminoso. — Ele cura o que o ódio não entende.


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