O Lucas havia concluído o dia de trabalho e até saíra para jantar à luz de velas com a Valentina antes de fazer essa ligação. Pela manhã, ele tinha desligado na cara da Júlia de propósito. Ele calculou o tempo e imaginou que deixá-la pendurada o dia todo seria o suficiente para fazê-la entender a situação atual.
— Já se decidiu?
— Sobre o quê?
O tom de Júlia soava muito indiferente, completamente distante da maneira cuidadosa e servil de antes. O Lucas franziu as sobrancelhas.
Ele se recusava a acreditar que o caráter de alguém pudesse sofrer uma mudança drástica em tão pouco tempo, e muito menos de que o amor de Júlia por ele pudesse sumir. Portanto, ao encará-la agir assim, só achou que ela estava se fazendo de difícil.
— Do que você acha? — Seu tom ficou um pouco mais gélido.
— Eu não sei, se não tem nada de importante, eu vou desligar. — Júlia ainda estava no quarto do hospital, e embora a porta do banheiro estivesse fechada, ela abaixou a voz com receio de que sua mãe a ouvisse.
— Sobre pedir desculpas ao Arthur.
Então era sobre isso.
— Já falei que não fiz nada de errado e não vou pedir desculpas. — Júlia permanecia irredutível.
— Pelo visto, o que aconteceu hoje ainda não foi o suficiente para lhe dar uma lição. Não se esqueça de que se consegui falar com um hospital, também consigo falar com o segundo. — O Lucas já havia sido informado pelo hospital de que a mãe dela tinha sido transferida, mas nem se deu ao trabalho de descobrir os detalhes.
Ao ouvir isso, Júlia soltou um riso frio. Pelo menos ele era direto, admitindo sem rodeios o que havia feito.
Ela não tinha a mínima vontade de discutir ou brigar com ele; só queria descobrir um jeito de resolver essa bagunça.
Embora agora sua mãe estivesse no Hospital Port Royal, afinal de contas, ainda era em Nova Alvorada, o território de influência da Família Campos. Se o Lucas realmente quisesse aprontar alguma coisa, não seria algo impossível para ele. Sem contar que, até agora, ela já tinha causado trabalho demais ao Sr. Carvalho e não queria gerar mais problemas.
— O que você quer, afinal? — Ela perguntou, sem enrolação.
Após encerrar a chamada, quando saiu do banheiro, Júlia encontrou o olhar ansioso e cauteloso de Marina: — E então? O que o Lucas disse?
— Nada, apenas para a senhora cuidar bem da saúde. — Júlia virou-se para ajustar a cama e evitou o olhar da mãe intencionalmente.
— Ora, eu já estou no hospital, o que poderia me acontecer? Mas e vocês? Devem se cuidar ainda mais.
— Eu sei. Está com sono? Quer dormir mais um pouquinho?
Os efeitos colaterais dos remédios eram bem pesados, e de fato, Marina logo voltou a sentir sonolência. Depois de recomendar mais algumas coisas a Júlia, acabou adormecendo novamente.
Marina dormiu até o final da tarde e, quando acordou, o hospital havia acabado de entregar o jantar. Eram todos pratos de Nova Alvorada, mas evidentemente modificados para adaptar a refeição à condição da paciente da melhor maneira possível.
Enquanto Júlia ainda pensava sobre como um hospital associado a Porto Belo podia ter pratos de Nova Alvorada tão ricos em sabor, a enfermeira logo trouxe mais um prato; desta vez, era o jantar da própria Júlia. Sem exagero, todo o jantar continha suas comidas favoritas, com os doces e frutas em perfeitas medidas.

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