— E não tem nada de errado em ser ingênua — intrometeu-se Rodrigo na conversa. — Com o Lucas protegendo-a, e com a gente para cuidar dela como irmãos mais velhos, a Valentina não precisa crescer.
Rodrigo sempre mimava a Valentina como se fosse de fato a própria irmã.
Quando chegou à família Bastos com sua mãe no passado, além dele, havia também a sua irmã. Naquela época, Rodrigo tinha quatro anos de idade, e sua irmãzinha não passava de um aninho. E, justo quando ele achou que os familiares viveriam uma vida normal dali em diante, um belo dia, sua mãe subitamente lhe informou que a sua irmã havia se perdido.
Ao receber essa notícia, Rodrigo simplesmente não conseguia aceitar, mas era jovem demais, e chorar e gritar não surtiu nenhum efeito. Sua mãe insistia numa única justificativa: ela havia se perdido, ele nunca mais deveria pensar na garota, devia apenas viver a própria vida muito bem.
Durante esses anos, como dissera sua mãe, ele realmente viveu muito bem, com vestes luxuosas, refeições requintadas e um sucesso promissor. No entanto, Rodrigo sempre sentiu um enorme vazio no peito.
Portanto, há muitos anos, quando encontrou Valentina pela primeira vez, ele desenvolveu uma profunda compaixão por ela. Aqueles olhos grandes e bochechas rosadas rapidamente lembraram as imagens da pequena irmã no passado.
Às vezes, por mais que notasse a arrogância escancarada de Valentina, Rodrigo não achava ser nada demais. Garotas eram feitas para serem paparicadas, não é mesmo? Mimar meninas deveria ser a lei da vida.
Se a sua irmã verdadeira estivesse presente, ele com certeza também a mimaria dessa maneira.
As pessoas em volta trocaram mais algumas palavras com Valentina antes de cercá-la e seguir para o restaurante.
Por outro lado, após encontrar uma situação daquelas, Júlia sequer tinha vontade de almoçar; apenas caminhou direto de volta ao escritório. Ao atravessar as portas, percebeu a confusão aglomerada no local em que havia se sentado durante a manhã, que estava cercado por um bando de pessoas.
Quando se aproximou, ela percebeu o que elas estavam fazendo ali: distribuíam copos de lattes e frutas para todos.
— Sério mesmo, você sabe dessa regra de quem chega primeiro? Eu deixei um laptop gigante daqueles em cima da mesa e você não conseguiu ver? Se tem problema na vista, vá no médico. — Júlia puxou a cadeira sem cerimônia e sentou-se na mesma posição onde estava sentada.
Por um instante, as pessoas ao redor se entreolharam. Algumas, temendo que a situação fugisse do controle, se adiantaram para apaziguar as coisas. Elas alegaram que, de fato, não tinham visto os pertences, e ainda chegaram a dar um pouco de seus lattes e frutas à Júlia como pedido de trégua.
Júlia sequer teve a chance de recusar. Aquela pessoa que tinha se manifestado agora pouco foi ainda mais rápida, puxando a ofensa outra vez: — Tudo isso foi bancado pela nossa Diretora Campos. Ela acha que merece?
Em seguida, ela virou sua atenção de volta para Júlia novamente: — Dê uma olhada de cima a baixo no lixo que é o seu nível antes de achar que tem peso para alguma coisa. Tão gorda e asquerosa que até mesmo permanecer ao seu lado aqui dá vontade de vomitar.
Embora não fosse a primeira vez que lidava com esse tipo de palavra, ser humilhada sob a visão de tantas pessoas em público assim ainda a deixava incrivelmente envergonhada. Ela se levantou, encarou de frente a mulher a sua frente: — E por acaso chega a ser tão repugnante quanto o seu nível desprezível na cara de pau ao tentar roubar as coisas dos outros?

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