Após mais uma noite praticamente em claro, me levantei na manhã seguinte, vestindo a melhor roupa que tinha conseguido levar, e decidi rodar um pouco para deixar alguns currículos. Deixei minhas irmãs dormindo, e com os últimos centavos que me restavam, imprimi algumas cópias, distribuindo em alguns estabelecimentos da redondeza.
Eu sabia que elas teriam o que comer pela manhã, mas precisava conseguir algo ao menos para o almoço. Passei por cima do meu orgulho e comecei a abordar algumas pessoas, explicando em partes a nossa situação, pedindo ajuda.
Deparei-me tanto com olhares de piedade quanto de desprezo e desconfiança, até que uma senhora simpática parou para me ouvir, me mostrando uma luz no fim do túnel.
— Meu patrão está buscando alguém para ser babá de sua filha. Ela é cadeirante, demanda um pouco mais de trabalho, porque, bom… É um pouco mimada e birrenta. O pai não impõe limites, trabalha o dia todo não é muito presente, sabe? Então, muitas babás acabam desistindo… Se quiser tentar, posso te indicar.
Nem pensei duas vezes, deixei com ela um currículo e aceitei os trocados que me deu, esperançosa. Eu já estava me sentindo mal de tanta fome, então, comprei um salgado para enganar o estômago, levando mais dois para alimentar minhas irmãs.
Quando cheguei, Amanda veio ao meu encontro, nervosa.
— Graças a Deus que chegou! Já dei o remédio novamente para a Bia, mas a febre não baixou. Coloquei ela no banho para ajudar.
— Fez bem… Eu consegui alguns trocados, trouxe um lanche para vocês e vou levar ela para o hospital. Você fica aqui. Tudo bem?
Ela concordou com os olhos cheios de lágrimas.
— Não fique mal, não se preocupe. Hoje deixei alguns currículos, tenho fé que logo vou conseguir algo, as coisas vão se resolver.
Peguei minha irmã, que estava fervendo, e segui até uma parada, tomando um ônibus que nos deixou próximo ao posto de saúde. Fiz a ficha dela, aguardando algumas horas, até que finalmente fomos atendidas. Bia foi diagnosticada com infecção de garganta, e saímos com uma receita em mãos. Porém, quando parei na farmácia, choquei-me com o valor que ficariam as medicações, principalmente o antibiótico.
— Desculpe, senhor, não consigo levar agora. Volto depois, obrigada. — falei para o farmacêutico, antes de me retirar contendo o choro.
Quando finalmente chegamos no quartinho, já era fim de tarde. Beatriz se queixava de fome e, apesar de estar com a febre controlada pela medicação que haviam feito no hospital, estava amuadinha. Olhei para Amanda que também estava extremamente abatida e me perguntei se realmente deveria ter fugido com elas.
Fiquei um tempo ali pensando no que daria para comprar com o pouco dinheiro que havia restado. Minhas irmãs, da mesma forma que eu, estavam o dia todo com apenas um salgado no estômago, e precisavam de algum alimento mais forte.
Segui para a janela com os pensamentos a mil por hora, me lembrando do currículo que havia deixado com aquela senhora, ansiosa para que me ligassem.
— Isa, minha barriga dói… Estou com muita fome.
As lágrimas banhavam meu rosto quando olhei para minha irmã mais nova, notei também que Amanda chorava silenciosamente. Então, em meio ao desespero, um pensamento insano rondou a minha mente.
— Eu sei, vou dar um jeito… — falei esfregando os olhos.
— O que vai fazer? — Amanda me olhou confusa.
— Preciso conseguir mais dinheiro, o que tenho não é suficiente para comprar comida e os remédios.

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