POV CHARLOTTE
— Eu vou tomar. — Respondi, desligando a chamada. Logo em seguida, o bipe da mensagem com o endereço chegou na tela.
Olhei em direção ao corredor principal e percebi que o meu pai e o meu avô ainda não tinham retornado da busca por Betânia no estacionamento. Peguei a minha bolsa pesada, cheia de maços de dinheiro, ajeitei o casaco preto largo sobre o corpo para esconder as mechas coloridas e caminhei firme em direção à porta de saída oposta do restaurante, que dava para os fundos.
Saí pelo acesso de serviço antes que os dois voltassem para a mesa, sumindo no ar frio da tarde de Porto Alegre.
Peguei o primeiro táxi na calçada e dei o endereço do hotel. Eu precisava me livrar daquela carcaça de espantalho gótico amassada antes de pisar na boate.
Subi direto para o quarto, joguei a bolsa cheia de notas em cima da cama e me tranquei no banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente lavar o estresse daquele almoço desastroso e o resto da ressaca passada.
Saí do chuveiro e gastei um bom tempo espalhando cremes hidratantes e passando óleos perfumados pelos braços e pernas. Finalizei o processo com várias borrifadas do meu perfume.
Enquanto espalhava o hidratante pelas pernas, a minha própria mente começou a tripudiar da situação de uma forma cruel.
Parabéns, Charlotte.
Vinte e um anos.
Você passou dos doze aos dezoito trancada em um internato rígido na Suíça, vigiada por freiras que controlavam até o tempo do nosso suspiro. Depois, engoliu mais dois anos enfiada em uma faculdade suíça só para mulheres até o local virar cinzas naquele incêndio e ter que voltar ao Brasil.
O resultado de viver trancafiada em uma bolha a vida inteira estava bem ali, refletido no espelho. Eu era uma completa analfabeta social.
Eu conseguia citar de cabeça a variação percentual do PIB dos Estados Unidos das últimas três décadas, resolver equações complexas e projetar a lapidação perfeita de um diamante bruto em um esboço rápido.
Fora dele, as interações humanas pareciam escritas em um idioma que eu nunca estudei.
Eu não sabia como abordar alguém, como manter uma conversa simples ou decifrar os olhares cotidianos das pessoas.
Quando finalmente conquistei o acesso aos cartões de crédito da família no Brasil, o meu último pensamento envolveu homens ou relacionamentos com pessoas.
Porque como eu pai dizia.
" Gente rica não pede permissão e nem precisa de relações pessoais ou socioemocionais."
Eu só queria ir ao shopping, gastar dinheiro, comprar roupas coloridas que antes eram proibidas e comer todas as coisas gostosas que eu não tinha direito na infância. Eu estava presa em uma adolescência atrasada porque nunca tive uma vida comum. Eu era um elemento estranho tentando entender como os habitantes da Terra viviam.
E eu sabia disso e nem me importava porque tinha um Cartão Black, sem limites.
Para mim, observar as pessoas andando na calçada parecia um estudo antropológico de uma espécie distante.
A coisa mais ousada que fiz foi trocar a faculdade de economia por Design, falsificando a assinatura do meu pai. Mas quem me ajudou com a ideia foi a Moon.
Eu só faço coisas para tentar contrariar o meu pai e o meu avô e essa decisão nem foi minha, vi em algum lugar.
Afinal de contas, ninguém me enxerga.
— Droga! Droga! Será que eu vou conseguir? — praguejei baixinho, mergulhada em dúvidas.
E o topo desse meu desajuste estava acontecendo agora.
Nunca apresentei um namorado para a família, na verdade nem conseguia manter um diálogo normal. Michael, um garoto de quem eu gostava no passado, tentou me beijar, mas enfiou a língua na minha boca com tanta ignorância que eu simplesmente mordi.
Eu não sabia que o conceito envolvia sugar, e não morder.
Esse é o preço de ler apenas livros técnicos e zero ficção. Eu tinha me tornado um dicionário ambulante de dados inúteis.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Me Casei com Gigolô e Ele Era Meu Noivo Fugitivo Bilionário