POV CHARLOTTE
Eu parei na calçada escura do Quarto Distrito, encarando a fachada cinzenta da Erotic's Boys. Dei um passo em direção à porta de entrada. Meu estômago deu um nó. Recuei dois passos. Fingi que olhava uma mensagem na tela apagada do celular. Limpei a garganta.
Caminhei até a porta de novo. Desisti outra vez.
Respirei fundo. Estiquei a mão para a maçaneta. Não. Voltei. Respirei de novo.
Caminhei até a porta. Desisti outra vez. A senhora da banca de jornal do outro lado da rua já estava me olhando pela terceira vez consecutiva.
Ela provavelmente estava pensando: ou entra ou vai embora, mulher.
Eu tinha vinte e um anos. Nunca tinha entrado em uma boate na minha vida. Segurei firme a alça da minha bolsa recheada de notas de cem reais e empurrei a porta de uma vez só.
O ambiente era uma penumbra densa, cortada por luzes vermelhas neon. Assim que entrei, alguns olhares vieram até mim.
Ele descobriu.
Abracei a minha bolsa mais forte, sentindo o pânico subir.
Uma mulher estava olhando fixamente para mim na sequência. Ela também sabe que tem dinheiro aqui.
Um segurança olhou para mim.
Descobriu.
Um casal passou por mim.
Eles também sabem.
O DJ olhou da cabine.
Até ele.
De repente, avistei outro homem vestido de policial vindo na minha direção. Droga. Parei.
— Posso passar?
— Ah, claro. — Dei um passo para o lado.
No fim, ele só estava esperando eu sair da frente para poder passar.
Fiquei tão desorientada com o choque cultural que continuei andando para a frente sem olhar os obstáculos no caminho. Nunca estive em uma boate. Muito menos em uma boate onde os funcionários usavam menos roupa do que eu na praia.
Meu corpo colidiu com força total contra uma estrutura firme no meio do corredor. Teve um barulho estridente de metal e uma bandeja cheia de copos de vidro despencou no chão, se estraçalhando em mil pedaços ao redor das minhas botas.
— Ah, me desculpa! — Soltei em um sobressalto.
Me curvei de imediato, esticando as mãos para tentar catar os cacos maiores. Uma mão grande e firme desferiu um tapa leve de aviso contra o meu pulso, me afastando dali. Levantei os olhos rápido. Era o mesmo sujeito alto do restaurante mais cedo. Ele olhou fixamente para as minhas mechas coloridas.
— De novo? — O homem soltou a frase com a voz grossa, exalando uma irritação pesada.
— O quê? — Perguntei.
— As pessoas não olham por onde andam.
— Você que deveria prestar atenção, alguém pode se machucar. — Rebati, irritada. Olhei para o chão e tentei insistir. — Eu te ajudo.
Estiquei a mão para os cacos, mas ele bateu na minha mão de novo, me impedindo.
— Eiiii... — exclamei, puta da vida.
— Além de desatenta é louca, vai cortar a mão. — O cara me respondeu de forma totalmente ignorante.
O sujeito soltou um riso curto e cínico. Para pirraçar a arrogância dele, dei um passo à frente e chutei de propósito a bandeja de metal vazia que estava caída no chão.
O objeto deslizou fazendo um barulho infernal pelo granito. Dei as costas para o brutamontes e marchei em direção ao balcão do bar.
— Eu não queria ajudar mesmo. — Rebati, enquanto passava por ele. — E não gosto de bandejas, tá?
Desabei na banqueta alta de couro, abracei a minha bolsa pesada e comentei alto para o nada:



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