(Ponto de vista de Apollo)
Saí do hotel e fui imediatamente recebido pelo brilho familiar do carro preto estacionado na calçada.
Austin, meu secretário, estava à frente do veículo, exatamente onde eu esperava. Ele estava sempre dez passos à frente. Fez uma leve reverência ao me ver.
— Bom dia, senhor Apollo.
Retribuí acenando com a cabeça.
Ele se moveu rapidamente, abrindo a porta traseira. Entrei, ajustando o punho da camisa e cruzando uma perna sobre a outra. Um copo de café quente estava no console central, ao lado de uma pasta organizada com os relatórios do dia.
Quando o carro se afastou do hotel, peguei o documento e passei os olhos pela primeira página, tomando um gole de café distraidamente. Estava um pouco quente demais.
Perfeito.
— Por que o Chase se atrasou hoje de manhã? — Perguntei, sem erguer os olhos.
Normalmente, aquele garoto era pontual. Acordava ao amanhecer. Enterrado em e-mails e planilhas às seis. Café na minha porta às sete. Hoje, tinha se atrasado em todos os horários marcados.
Ao volante, Austin pigarreou de leve. Ergui o olhar. Ele me observava pelo retrovisor. Desviou os olhos no instante em que nossos olhares se cruzaram.
— Senhor, Chase pegou a chave reserva errada no saguão do hotel ontem. Teve que resolver a confusão hoje cedo e recuperar a correta. — Falou cuidadosamente.
Inclinei-me para trás no banco, dobrando ao meio a página que estava lendo.
Austin trabalhava comigo há mais tempo do que qualquer outro. Já estava saindo da casa dos cinquenta anos, um homem experiente demais para ser pego de surpresa, leal demais para falar fora de hora. Aquela competência rara e implacável era o motivo de eu confiar nele. Mas nem ele era imune à pressão. Ultimamente, sua saúde vinha piorando, e por isso contratei alguém mais jovem para assumir tarefas menores, tais como lembretes de agenda, recados, relatórios simples, para que Austin pudesse se concentrar onde eu mais precisava dele.
Todos sabiam uma coisa sobre mim: eu não tolerava erros. Fiz uma pausa breve e então voltei calmamente os olhos para o arquivo em meu colo.
— Garanta que isso nunca mais aconteça.
— Sim, senhor. — Respondeu Austin de imediato.
Meu telefone tocou. Não precisei olhar para saber que não eram boas notícias. Ninguém ousava me ligar tão cedo, a menos que algo estivesse pegando fogo ou desmoronando. Olhei para a tela.
Claro. Era ele.
Encarei o nome piscando por alguns segundos. Eu podia ignorar, mas o velho continuaria ligando até eu ceder. Teimosia corria no sangue da família, infelizmente. Com um suspiro, atendi.
— Filho. — Veio a voz familiar.
— Onde você está?
Inclinei-me no banco, já exausto.
— Gostaria de saber, não é? Não finja, atuação nunca foi seu forte, velho.
— Do que você está falando? Não faço ideia do que quer dizer. — Respondeu meu pai, fingindo confusão.
Coloquei o telefone no viva-voz e o larguei no banco ao meu lado, voltando minha atenção ao documento.
— O que você quer? Estou ocupado.
— Quando foi que você não esteve ocupado? — Retrucou na hora. — Você não tem vida, Apollo. Você é o seu trabalho. Nem sei o que faz com todo esse dinheiro. Nunca tira férias, nunca namora, nunca faz nada divertido.
Continuei lendo. Um dos relatórios tinha um erro nos números. Circulei com a caneta.
Meu olhar se perdeu pela janela escura. As pessoas lá embaixo se moviam como formigas. Tamborilei os dedos na porta, o ritmo constante, automático.
Emoções.
A própria palavra quase me fez rir. Um conceito tolo, algo que eu tinha superado há muito tempo. Sentimentalismo atrasava as pessoas. E eu não tinha o luxo de ser lento.
O tamborilar cessou quando a voz dela, a mulher da noite anterior, surgiu em minha mente.
"Você não tem graça nenhuma. Parece um velho. Talvez tudo o que você precise seja alguém mais jovem para te ensinar a viver de novo."
Meus lábios se moveram antes que eu pudesse impedir, curvando-se em algo perigosamente próximo de um sorriso. Aquela garota era um turbilhão de emoções. Pela manhã, estava de olhos arregalados e furiosa, agarrando um cobertor como se fosse uma armadura, lançando olhares mortais como se pudessem realmente me ferir. Tinha sido divertido, nada mais. Ela foi uma das poucas mulheres que ousaram agir assim comigo.
Ela tinha me surpreendido, e isso não acontecia com frequência. E na noite anterior, a forma como reagia a cada toque, como se ninguém jamais tivesse dedicado tempo a ela antes. O jeito que tremia sob minhas mãos, como se se agarrasse a mim por necessidade, como se fechava em torno dos meus dedos.
— Que pena. — Murmurei para mim mesmo mais uma vez.
— Não pude terminar o que comecei.
— Senhor. — Chamou Austin, à frente.
— Chegamos.
Instantes depois, a porta se abriu. Saí do carro, ajustando o punho do terno. À minha frente erguia-se uma estrutura alta de vidro e aço. Meu prédio. Meu império.
Encarei-o com indiferença.
Isso era tudo de que eu precisava. Emoções eram apenas distrações.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Me Satisfaça, Daddy
História muito boa, me prendendo em casa capítulo.amando...