Aquele não era, em hipótese alguma, um toque suave e provocativo como o que ela oferecera minutos antes.
Os lábios masculinos a devoraram sem clemência, invadindo sua boca com uma intensidade que lhe extirpou o fôlego.
Um beijo imperioso, tirânico, que clamava domínio absoluto.
Subjugada por tamanha fúria passional, Bruna arqueou o pescoço e apenas correspondeu às exigências, deixando-se conduzir pelo furacão.
O torpor durou até que a mão áspera deslizou para a barra da blusa dela, prestes a expor sua pele morna à friagem do quarto.
Num reflexo desesperado, Bruna prendeu o pulso dele com força.
Uriel abriu os olhos turvos pela luxúria. A escuridão das íris contrastava com um avermelhado febril, denunciando o controle que lutava para recuperar.
— O que foi? — ele ofegou, a voz terrivelmente grave.
As cordas vocais carregavam todo o peso do desejo interrompido.
— Nossa filha... está dormindo logo ali.
— Eu a levo para o quarto da minha mãe agora mesmo.
Homem de ação como sempre fora, já estava recolhendo a postura para cumprir o que dissera.
A mulher agarrou-lhe a gola, puxando-o de volta.
Apesar de ter perdido muitos pudores convivendo com o marido, bater na porta da sogra de madrugada, entregando a neta aos prantos, deixaria cristalino o que o casal planejava aprontar.
E Bruna se recusava a protagonizar um papel tão vergonhoso.
— Não... Valentina já deve estar no décimo sono. Deixe isso para amanhã.
Evitando aquele olhar abrasador, empurrou o peito dele de leve, encolheu-se no seu lado da cama e envolveu-se na coberta espessa como se formasse uma barricada impenetrável.
Inconformado, ele fuzilou o pequeno casulo de tecidos.
O incêndio já tomava conta de suas veias, e ela esperava que um balde de gelo imaginário resolvesse a situação?
Sem palavras, a esposa apontou enfaticamente em direção ao banheiro.
A contragosto e amaldiçoando baixinho, não teve outra saída senão encarar uma ducha gelada.
Quando retornou, enfiou-se entre os lençóis virando as costas. Apenas a nuca úmida serviu de paisagem para a companheira.
A birra de menino contrariado exalava por todos os poros do magnata.
Culpada, Bruna cutucou-lhe as costas musculosas. — Não fique com raiva, querido. Tá bom, prometo que não te beijo mais... nunca mais.
Era, claramente, uma chantagem barata.
E funcionou perfeitamente. Como uma mola, ele girou e disparou dardos invisíveis pelos olhos.
— Você sabe muito bem que não é por isso que estou contrariado.
Ignorando o ressentimento e transbordando um sorriso maroto, ela murmurou: — Olha só quem finalmente virou para mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Meu Amor, Meu Traidor