Raúl Alves manteve o rosto impassível:
— Não precisa.
Natã suspirou:
— Eu realmente gosto muito de mulheres humanas puras.
O lobisomem de orelhas castanhas fez um biquinho:
— Eu também queria, mas elas nem olham pra mim, poxa... Outro dia subi a serra, foi um sufoco caçar um javali enorme, matei, tirei o sangue, escolhi o melhor pedaço da carne e, antes do amanhecer, deixei na porta dela. Ela saiu gritando e fugiu.
Raúl Alves ouviu tudo sem mudar a expressão. De repente, soltou uma risada seca, irritado:
— Vocês ficaram quanto tempo fora das montanhas? Já aprenderam essas coisas da sociedade humana? Tão fáceis de cair em tentação assim?
Bryan respondeu:
— Fazer o quê? Mulher humana é irresistível.
Natã completou:
— Tem tão poucas fêmeas de lobisomem, e elas só gostam dos machos mais fortes, com o melhor porte físico. Raúl, nós estamos destinados a ser rejeitados mesmo, por isso é melhor tentar a sorte com as humanas.
Bryan assentiu com vontade:
— É isso aí. Mesmo que você, como líder, tenha perdido um pouco da fidelidade, você ainda é o mais forte, está super bem na sociedade humana, tem um monte de fêmeas da nossa espécie que não se importam. Elis, por exemplo, não liga. A Malu também toparia, não? Até aquela famosa Lua, a beldade do pico nevado, já se declarou para você.
— Nasceu em berço de ouro e não sabe aproveitar, viu, Raúl? Que sorte a sua, poxa...
Raúl Alves ficou em silêncio.
Levantou-se, o rosto fechado:
— Querem essa sorte pra vocês?
Ele desprezava os humanos puros, mas acabou se envolvendo com uma. Prezava tanto a lealdade que, ainda que uma loba aceitasse, ele não conseguiria se perdoar.
Estava fadado à solidão.
E aqueles idiotas do clã ainda o invejavam.
Mal terminou de falar e...
Todos gritaram:
— Queremos! Essa sorte é tudo que a gente queria!
Raúl Alves ficou tão irritado que girou nos calcanhares e foi trabalhar.
Não havia mais salvação para aquela matilha.
***
Enquanto isso...
Com a permissão do líder, Elis disparou escada acima, indo direto para o quarto com aquele cheiro tão diferente.
O cheiro da mulher humana pura, misturado ao aroma de leite do filhote.
Auuuu!
Ela entrou num rompante, esbarrou na mesa com tanta força que quase derrubou o abajur. No último segundo, conseguiu segurar o objeto antes de ele cair no chão.
No meio do caminho, Elis parou.
De repente, voltou de fininho, se agachou ao lado da cama e ficou olhando o rosto adormecido da mulher.
Depois de um tempinho, estendeu o indicador e cutucou a bochecha de Luara Senna. Ah, é de verdade, que pele macia!
Saiu disparada, descendo as escadas.
E foi cercada pelo grupo.
— Elis, desse jeito parece até que a mulher é muito feia, ficou apavorada!
— Conta, Elis, ela é tão feia assim? E o filhote, é fofinho?
Elis respondeu meio abobada:
— Esperem só, quando ela aparecer, vocês vão ver.
— Ih, a Elis ficou boba de tanto susto?
— E se a gente desse uma espiada?
— Vai nessa, se quiser ser mandado de volta pro pico nevado pelo líder...
— Melhor deixar quieto.
Do nada, ouviu-se um uivo rouco vindo da cozinha:
— Preciso de alguns lobos aqui pra ajudar a preparar a comida dessa humana!

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