Entrar Via

Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei romance Capítulo 54

PERSPECTIVA DA SERAPHINA

A tensão na cozinha estava palpável. Maya ainda estava com o braço entrelaçado no meu e o seu corpo era quente e reconfortante. Mesmo assim, eu me sentia gelada por completo enquanto olhava para o meu irmão, que estava com as mangas da camisa arregaçadas até os cotovelos e transpassava uma calma artificial enquanto colocava os talheres na mesa como se fosse uma noite normal, como se nós não tivéssemos nos afastado e como se ele não fosse um dos principais responsáveis pela minha infelicidade.

"Oi," ele repetiu.

Pisquei. De repente, senti minha garganta demasiadamente apertada. "Você... Você tá morando aqui agora?"

Maya me cutucou levemente. "Eu convidei ele pra jantar. Ele queria te ver, conversar."

Me voltei lentamente para ela e tentei conter a acusação na minha voz, mas não pude deixar de me sentir pega de surpresa. "Por quê?"

Maya se mexeu, de repente parecendo desconfortável, algo raro para ela. "Porque ele tá arrependido, Sera. Ele quer se desculpar com você, acertar as coisas." Ela se inclinou para mim. "Eu não quero brigas entre o meu companheiro e a minha melhor amiga."

Pressionei os lábios com força, desviando o olhar. Era difícil não sentir que a Maya tinha extrapolado alguns dos meus limites, mas acho que, vendo a situação como um todo, conseguia entender as suas intenções.

Ela só sabia o que eu contei para ela. Ela nunca compreenderia verdadeiramente como era ter um irmão mais velho, que deveria ser o seu protetor, como seu antagonista, defendendo o resto do mundo.

Inspirei profundamente pelo nariz e forcei os meus membros a se moverem e me sentarem à modesta mesa da cozinha, de onde eu podia observar a Maya preparando o jantar.

"Toma," Ethan disse suavemente, empurrando um copo de vinho tinto na minha direção. Aceitei sem levantar os olhos para ele.

"Sera?"

Olhei para o líquido vermelho escuro. "Hmm?"

"Fico feliz que você tenha aceitado jantar com a gente."

Dei de ombros em resposta. Ainda não conseguia compartilhar do mesmo sentimento. Eles deveriam estar satisfeitos por eu não ter simplesmente corrido para a porta.

Enquanto eles cozinhavam, eu observava a Maya e o Ethan pelo canto do olho. Eles estavam juntos há pouco tempo, mas a dinâmica entre eles era uma fofura de se ver. Eles se provocavam sem parar, mas trabalhavam em perfeita harmonia.

Então, apesar de ainda me sentir desconfortável e ter uma dor no peito que não conseguia explicar, pelo menos eu estava feliz pela minha amiga, que tinha encontrado aquilo que eu havia passado a maior parte da vida procurando, especialmente os últimos dez anos.

Quando terminaram, colocaram na mesa o salmão grelhado, batatas-doces e uma salada, e nos sentamos para jantar.

Esperei dez minutos passarem, até que nossos pratos estivessem cheios e as primeiras garfadas tivessem sido consumidas, para falar.

"Você queria conversar?" Disse friamente, dobrando meu guardanapo em um quadrado cada vez mais apertado no meu colo.

Ethan limpou a garganta e assentiu uma vez. "Queria pedir desculpas."

Arqueei uma sobrancelha. "Pelo quê?"

Ele suspirou profundamente. "Por tudo. Por ter te ignorado todos esses anos, por te tratar como inferior. Por ser um irmão ruim."

Fiquei parada, chocada com o quão... fácil a desculpa tinha saído.

Não havia tremor na voz dele. Nenhuma culpa. Apenas uma fala calma e medida, como se fosse uma conversa cotidiana.

Como se ele ser um 'irmão ruim' não tivesse sido crucial para arruinar a minha vida.

"Certo," murmurei, voltando ao meu prato.

"Você me perdoa?"

Eu dei uma risadinha para o meu copo de vinho.

Maya se mexeu ao meu lado. "Sera..."

"Não, tudo bem," Ethan interrompeu. "Ela tem todo o direito de se sentir injustiçada o quanto quiser. Não tô esperando o perdão assim tão rápido."

"Ótimo," murmurei.

Ele me estudou por um momento. Então, suas próximas palavras cortaram a pouca calma que ainda restava no ambiente.

"A Celeste tentou se matar hoje mais cedo."

Maya ficou paralisada ao meu lado e eu senti como se o chão tivesse desaparecido sob os meus pés. Foi por isso que o Kieran saiu correndo da minha casa como se o mundo estivesse acabando.

Ethan continuou, com um tom propositalmente controlado. "Ela bebeu água sanitária. Felizmente, já estava no hospital e foi rapidamente estabilizada, mas os médicos disseram que a loba dela tá se deteriorando rapidamente. Ela tá em um estado extremamente frágil agora."

Pisquei, esperando que as emoções corretas surgissem dentro de mim. Choque? Culpa? Pânico? Ou luto, talvez? Mas tudo que eu sentia era uma estranha apatia, como se estivesse recebendo notícias sobre alguém que eu não conhecia.

Maya tentou segurar a minha mão debaixo da mesa, mas eu não retribuí.

"Não tô pedindo que você se importe com ela," Ethan disse. "Mas tô pedindo que você pare."

Virei minha cabeça devagar. "Pare com o quê, exatamente?"

"Pare de ir atrás do Kieran."

Ri, amargamente e baixo. "Você acha que fui atrás dele, que tô indo atrás dele?"

"A Celeste acha que ele te ama, ou pelo menos que vocês ainda têm alguma conexão. Isso está acabando com ela. Ela tá desmoronando um pouco mais a cada dia."

"Isso não é culpa minha", eu disse. "Ela deveria conversar com o Kieran sobre isso. Não há nada acontecendo entre nós e ele deveria se dedicar mais a tranquilizá-la."

"Mas dá pra culpar ela?" Ethan perguntou suavemente. "Você e o Kieran a machucaram todos aqueles anos atrás e..."

"Se bem me lembro, você estava no jardim na noite do baile." Minha voz estava tensa. "Você não ficou curioso com a mensagem que ela me mandou? Sobre a possibilidade de que a Celeste tenha tido algo a ver com o fato de eu estar naquele quarto de hotel naquela noite?"

Ethan suspirou. "Deixando a especulação de lado..."

Meu garfo bateu contra o prato e vi a Maya se encolher. "Especulação?" Eu disse, incrédula.

Ethan não recuou. "Não tô pedindo muito, Sera. Eu sei que o penhasco entre vocês duas não será facilmente superado, só... pare de aumentar o afastamento. Não a machuque mais do que ela já foi machucada. Não seja a razão pela qual ela tente desistir novamente."

O silêncio na cozinha parecia vidro quebrado. Eu encarei o Ethan por um longo tempo, lutando para organizar meus pensamentos e emoções confusos.

Levantei-me.

Maya também se levantou. "Sera, por favor."

Um músculo na sua mandíbula se contraiu. "Eu não esperava que fosse assim."

"Claro que não. Você achou que ela choraria, cederia e faria o papel que todos vocês esperam que ela faça. De novo!"

Virei de costas e apoiei as mãos no balcão.

"Não acredito nisso," murmurei.

Seguiu-se um longo silêncio.

Então, o Ethan disse baixinho: "Você tá com raiva."

Soltei um suspiro incrédulo. "Claro que sim. Você teve a coragem de mencionar a tentativa de suicídio da Celeste como se, de alguma forma, fosse culpa da Sera. Não basta tudo do que ela já foi acusada injustamente, como se tivesse culpa de tudo o que dá errado. "

A mandíbula dele voltou a se contrair. "Propus o jantar de boa fé. Pensei que talvez..."

"Ah, me poupe!" retruquei. "Você propôs esse jantar pra colocar a Sera como vilã, o que a sua família adora fazer. Você nem teve a decência de parecer sincero naquele pedido de desculpas fajuto." Balancei a cabeça. "Eu deveria ter acabado com isso no momento em que percebi quem você é."

Ethan ficou tenso. "Não faça isso."

Virei-me para ele. "Não é pra eu fazer o quê?"

"Não diga coisas que você não quer dizer, coisas das quais vai se arrepender depois."

Me endireitei e cruzei os braços. "Como o quê? Que eu deveria ter me afastado no instante em que descobri que você é o idiota do irmão da Sera?"

O rosto dele endureceu. "Maya, cuidado com o que diz."

"Ou o quê?" Desafiei, levantando-me para encará-lo, e nossos olhares travaram uma dança feroz. "Você vai fazer comigo o que fez com ela? Me torturar? Me silenciar? Me manipular? Fazer eu me sentir inútil?"

A voz dele baixou. "Consigo lidar com o seu temperamento, Maya. Consigo lidar com o seu sarcasmo, o seu fogo, o seu drama. Poxa, eu amo tudo isso. Mas não questione a minha lealdade a este relacionamento. Não assim."

"Como posso confiar na sua maldita lealdade quando vi você machucar a mulher que chama de irmã? Isso não te favorece, Ethan."

"Maya," ele rosnou, "pare com isso."

"Por que eu deveria?"

Ele deu um passo à frente. "Porque eu não vou aceitar isso."

Ergui o queixo. "E quanto a mim? E quanto ao que tô disposta a aceitar?"

Ficamos ali, nos encarando. Imóveis. Firmes. Ambos respirando pesado na sala silenciosa.

Ele balançou a cabeça. "Pense bem a respeito do rumo dessa conversa, Maya."

"Não," eu disse, com a voz firme. "Você que deve pensar bem. Pense sobre as suas ações e sobre quem você realmente é. Porque eu não vou escolher você em detrimento do que é certo."

O silêncio entre nós era cortante. Final.

E então, sem dizer mais nada, virei as costas para ele, com o coração acelerado e o peito queimando por ter imposto os meus limites.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Minha irmã roubou meu companheiro e eu a deixei