PERSPECTIVA DA CELESTE
A mansão Lockwood nunca me pareceu tão sufocante.
Cada lustre brilhava com uma perfeição impecável, cada canto tinha um leve cheiro de lustra-móveis e madeira, mas por baixo de tudo havia o cheiro da humilhação.
Já fazia três dias desde o fim do TFL. Três dias desde que o Kieran me olhou como se eu fosse alguém lamentável, um incômodo. E então ele se afastou.
Eu dizia a mim mesma que ele só precisava de tempo. Que, depois de todo o alvoroço, ele voltaria pedindo desculpas, racionalizando, compensando, como sempre fazia.
Era sempre assim. O Kieran podia ser teimoso e orgulhoso, mas também era previsível.
E ele me amava.
Então, quando o nome dele apareceu no meu celular esta manhã, choque e esperança me invadiram, e o meu coração deu um salto.
"Kieran!" Eu disse o nome dele como quem respira após quase se afogar, metade alívio, metade descrença.
"Celeste." A voz dele estava calma até demais. "Podemos nos encontrar? Tem uma coisa que eu preciso te dizer pessoalmente."
Eu sabia. Eu sabia que ele não conseguiria ficar longe por muito tempo.
"Claro," eu disse suavemente, como se já não tivesse corrido para o espelho, como se o meu coração não estivesse batendo tão alto que poderia ser ouvido do outro lado da linha.
Quando desliguei, alívio e uma antecipação alegre surgiram dentro de mim. Eu quase dei uma risada de incredulidade e êxtase.
Sim, sim, sim!
Minha mãe apareceu na porta nesse momento, com o casaco na mão e pronta para ir ao cemitério.
"Está acontecendo alguma coisa?" ela perguntou curiosa.
Eu sorri para ela. "O Kieran quer me ver!"
"Oh." A expressão dela mudou e eu franzi a testa. "Você não tá feliz?"
"Estou, sim. É só que..." Ela balançou a cabeça. "Você prometeu ir visitar o túmulo do seu pai comigo hoje. Você não vai ao cemitério desde o enterro."
Eu a dispensei com um gesto, já indo para o meu armário.
Revirei os vestidos de seda, chiffon e renda. "Diga ao Pai que eu vou amanhã," murmurei distraída para minha mãe.
"Celeste, ele..."
Virei a cabeça rapidamente. "O quê? Não é como se ele fosse a algum lugar."
Seus olhos se arregalaram. "Celeste!"
Revirei os olhos, voltando para o meu armário.
Minha mente girava com possibilidades: o anel, Kieran ajoelhado diante de mim, a manchete.
Celeste Lockwood e Alfa Kieran Blackthorne: A União das Lendas.
"Vou visitar ele em breve," disse. "Vou até levar o Kieran pra ser apresentado como o genro dele, do jeito certo, desta vez."
Minha mãe não falou nada conforme saía do meu quarto e fechava a porta.
Minha mão tremia enquanto eu passava blush no rosto. Tentei me acalmar, me preparando como se fosse para uma batalha e focando em cada movimento preciso para controlar os nervos.
Coloquei um vestido vermelho transparente, elegante, ousado e quase escandalosamente ajustado a cada curva.
O tecido captava a luz de um jeito que parecia ter sido derramado sobre a minha pele, destacando o calor do meu bronzeado e as longas e elegantes linhas das minhas pernas. Quando parei diante do espelho, vi uma versão de mim que o Kieran nunca conseguia resistir, a mulher para a qual ele sempre voltava, mesmo depois de dez anos, aquela que conseguia desarmá-lo com algo tão simples quanto um sorriso.
Enquanto saía do meu quarto, fiz uma promessa a mim mesma: desta vez, eu não o deixaria escapar.
***
O restaurante estava vazio quando cheguei. Nem uma alma à vista, exceto pelo garçom que abriu a porta para mim.
A luz das velas tremulava sobre os assentos de veludo e as paredes douradas, e uma suave melodia de piano tocava em algum lugar invisível. Ele tinha reservado o lugar inteiro.
Meus lábios se curvaram. Meu peito se encheu de emoção. Era isso. Era exatamente isso!
Kieran já estava lá, sentado à janela. Sua postura era ereta, o terno impecável, a expressão indecifrável.
Por um breve segundo, vi o mesmo homem que uma vez jurou que me protegeria do mundo, o homem que era meu antes da Sera cravar as suas garras nele.
Isso nunca mais.
"Não imaginava que você sabia ser tão dramático, Kie," provoquei de leve, colocando a minha bolsa de lado enquanto deslizava para a cadeira oposta a ele. Ele já tinha pedido vinho e eu envolvi os dedos ao redor da haste fria da minha taça.
"Reservar um restaurante inteiro? Você poderia ter simplesmente me pedido em casamento como um homem normal." Pisquei. "Você sabe que não me importo se as pessoas estiverem olhando."
Ele não sorriu.
"Celeste," ele disse, com a voz baixa e cuidadosa. "Preciso te falar uma coisa."
Direto ao ponto. Ah, que homem!
Passei a mão pelo cabelo, ignorando o leve frio na barriga. "Não fique nervoso. Eu prometo que vou dizer sim."
"Celeste."
O som do meu nome de novo, mais firme e mais frio, cortou a minha fantasia como uma lâmina.
Meus dedos pararam ao redor da taça de vinho. "O que foi?"
Ele respirou fundo, de forma constante e prolongada. O olhar dele não vacilou enquanto seus olhos estavam presos nos meus. "Precisamos terminar."
Por um instante, eu não entendi as palavras dele. Não faziam sentido juntas assim. "Terminar... o quê?"
"Isso", ele disse, gesticulando entre nós. "O nosso relacionamento."
Eu ri. Ri para valer. "Ah, deuses, você é péssimo nisso. Por um segundo, você quase me convenceu."
"Celeste..."
"Não, não." Balancei a cabeça. "Você sabe que eu gosto de drama, mas isso é um pouco demais, Kie. Você não pode fingir que vai terminar comigo logo antes de me pedir em casamento."
A expressão dele não mudou. "Eu não tô brincando."
O silêncio se instaurou entre nós.
As velas tremeluziram e o piano tropeçou nas tonalidades.
Minha garganta secou. "Você tá falando sério?"

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