Dentro da sala de coleta, a enfermeira desinfetava o braço de Alice enquanto a observava com um olhar complexo.
Atrás delas, duas enfermeiras conversavam baixinho num canto.
— É ela?
— É, é ela mesma.
— Que dó, criou um filho por seis anos pra descobrir que nem é sangue do seu sangue.
— Pelo que eu ouvi ali fora, a família do marido não presta. O homem se meteu com outra que tem o coração negro. Se quer saber a minha opinião, acho que o marido pulou a cerca.
— Meu Deus, que tipo de gente é essa?! Os mais velhos da família não colocam ordem?
— Ordem? Não viu? A mãe da moça claramente sabia que a filha trocou as crianças. Ficou tentando encobrir na cara dura.
— Se o menininho não estivesse quase morrendo, essa história ia ficar escondida para sempre!
— Com certeza ia! Ter Sangue O Negativo é super-raro, e a criança tem exatamente... — A enfermeira lançou um olhar rápido para Alice — o mesmo sangue que ela. Quem poderia imaginar que não era dela?!
— Já chega! Vocês não têm trabalho para fazer? Voltem aos seus postos! — repreendeu a enfermeira que coletava o sangue de Alice, virouse para dar uma bronca nas duas colegas.
Logo em seguida, dirigiu um olhar apologético a Alice.
— Sinto muito, não ligue para o que elas estão falando.
Essas palavras eram um tanto vazias. Ninguém passava por algo tão estarrecedor sem deixar as palavras entrarem no coração. Para algumas pessoas, o baque seria suficiente para tirar a vontade de viver.
Alice manteve o olhar fixo no chão, inexpressiva, deixando que a enfermeira espetasse a agulha calibrosa em seu braço.
Naquele momento, ela já parecia não sentir dor alguma.
Mesmo assim, as palavras sussurradas pelas duas enfermeiras ainda reverberavam nos seus ouvidos.
Era verdade, o Sangue O Negativo era incrivelmente raro.


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Não Quero Mais Ser A Sra. Cavalcanti!