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Não Quero Mais Ser A Sra. Cavalcanti! romance Capítulo 61

Ao cair da noite, Alice arrumou no escritório todos os materiais que levaria para o instituto no dia seguinte. Aproximou-se da janela e contemplou em silêncio a noite calma e a lua cheia no céu.

Ela já não se lembrava de quando fora a última vez que admirara a lua com uma paz de espírito tão serena.

Decidiu abrir a janela, sorvendo em lufadas profundas o ar fresco noturno.

Naquele instante, um carro aproximou-se devagar vindo de longe. Os faróis banharam a janela de seu escritório antes de o veículo seguir seu percurso lentamente.

Alice reconheceu o carro de imediato. Era o mesmo que, não muito tempo atrás, quando ela quase mergulhou no abismo da autodúvida, havia, sem querer, trazido-a de volta à realidade.

Ainda que o gesto não fosse intencional, e que o motorista quiçá nem soubesse de sua existência, ela nutria uma gratidão inexplicável por aquele carro e por quem o dirigia.

Com os olhos, ela o seguiu até desaparecer, o peito agora leve e solto.

No dia seguinte, tudo seria um recomeço!

Dentro do carro, ao passar pela Vila Número Um, Daniel Duarte ainda não pôde resistir ao ímpeto de mirar a luz acesa no segundo andar.

Desta vez, pareceu-lhe vislumbrar uma silhueta na janela. Mais do que isso: parecia ser Alice.

Seu instinto foi checar o retrovisor em busca do chefe.

Descobriu que, no banco de trás, o chefe também tinha os olhos perdidos na mesma direção.

— Então, patrão... — Daniel sondou cuidadosamente a expressão de Sebastião. — Já que conseguiu o contato da Srta. Alice de forma perfeitamente legítima, por que não manda uma mensagem pra ela?

Sebastião, impassível, virou o rosto e fixou o olhar afiado através do espelho, os lábios finos mal se movendo:

— Você está me ensinando a trabalhar?

Daniel encolheu-se e não ousou dizer mais nada. Porém, de relance, seus olhos iam e vinham no aparelho celular firmemente apertado na mão de Sebastião.

O chefe não era de ficar olhando o telefone o tempo todo, mas hoje, ele mal largara o aparelho o dia inteiro.

É claro que Daniel guardou esse sarcasmo só para os próprios pensamentos.

...

No dia seguinte, Alice acordou bem cedo.

O pior era que a via, sendo de mão dupla e estreita, não tinha recuo. Mesmo se empurrassem a peso de braços, não haveria para onde desviar a monstruosidade.

Alice olhou pelo vidro de trás; a fila quilométrica de carros empilhados também bloqueava completamente qualquer volta.

— Não podemos ficar assim... — ela sussurrou, e seu olhar tornou-se resoluto.

No segundo seguinte, abriu a porta do carro.

O motorista ficou atônito.

— Senhora, vai caminhando para o trabalho? Ei, senhora, ainda não pagou a corrida!

— Me dê um instante, eu já volto. — Alice respondeu através do vidro e marchou obstinada para a frente.

Caminhou uns cem metros e lá estava ele: um Porsche Panamera estacionado transversalmente no asfalto, atravancando o fluxo.

Ao redor do Panamera fervilhavam dezenas de motoristas que haviam ficado presos no engarrafamento. Segunda de manhã, todos com pressa para chegar ao trabalho. Imprensados daquele jeito, em cada rosto lia-se a exasperação e a urgência, todos buzinando em coro reclamando.

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