“Mãe… Mãe, por favor! Acorda, mãe!”
Clarice abriu os olhos, apoiando a mão no peito, ofegante. O quarto ainda estava
escuro, uma leve luz entrava pelas cortinas, a luz prateada da lua cheia. A madrugada
ia alta e ela deveria estar descansando para pegar seu voo para Pinewood cedo no dia
seguinte, mas fazia muito tempo que não conseguia dormir bem.
Ela se levantou, os pés descalços tocando o chão frio. Suas cisas já estavam
encaixotadas, não pretendia levar muito para sua nova “antiga” casa, apenas o
essencial. A única coisa que ainda estava fora das poucas caixas era o porta-retrato
que estava repousando ao lado do seu travesseiro.
Uma foto da sua mãe, Elaina.
As memórias do acidente que havia acontecido há somente um mês a assombravam
todos os dias, e a culpa também. As últimas palavras de sua mãe para ela ainda
estavam martelando em sua cabeça, ela jamais esqueceria e jamais deixaria de se
culpar, afinal, Clarice quem estava na direção, ela quem perdeu o controle do carro.
Clarice engoliu dois comprimidos, sem água mesmo, e voltou para a cama, abraçando
o porta-retrato e fechando os olhos, imaginando sua mãe ali, os braços dela ao seu
redor.
Só depois de quase duas horas, ela adormeceu.
— Claro, claro… Só quero que você saiba mesmo, sua mãe era uma boa amiga minha, então… Vou te ajudar em tudo o que eu puder!
— Obrigada, Jorge — a ruiva agradeceu, com um sorriso de orelha a orelha.
Gostava da gentileza de Pinewood, era sua coisa favorita na cidade.
Depois disso, o senhor entrou em seu carro e seguiu a estrada, sumindo de vista, então, finalmente, Clarice pode caminhar até a casa.
Uma pequena cerca com um portãozinho, tudo de madeira, dividia o terreno. A cerca, outrora branca, estava desbotada e com certeza ela iria dar uma boa pintura nela. A casa ficava na parte inicial de um grande terreno que fazia divisa com a densa floresta que cercava os dois lados da estrada, então, assim que passou pelo portão, Clarice se viu numa pequena campina de grama alta e, aos fundos, a floresta imponente que a cercava.
Ela tirou a chave do bolso e a colocou na fechadura, abrindo a porta com um pouco de esforço, parecia um pouco emperrada depois de tanto tempo fechada, então entrou, deixando a mala de lado e suspirando.
Os móveis ainda estavam como elas haviam deixado há mais de dez anos, cobertos por panos brancos, tinha muita poeira e, definitivamente, precisava de uma faxina.
Mas estava em casa novamente e, principalmente, mais perto de sua mãe do que nunca agora.
Tinha um lar, e esperava que sua vida começasse a melhorar a partir dali.

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