Aquela ameaça estava bem clara para ela.
De repente, pensou em todos os esforços que fez a vida toda. Das noites que passou em claro estudando, do tempo que teve que abrir mão e, por último, lembrou da mãe colando pedaço por pedaço o papel para tentar ajudá-la a realizar seu sonho.
Como olharia nos olhos da mãe quando chegasse em casa e dissesse que, além de perder a vaga de estágio, também havia perdido a única oportunidade capaz de mudar a sua vida?
Só de imaginar aquela conversa, as lágrimas ameaçavam cair. Ela já conseguia ver o olhar triste da mãe ao descobrir que a única filha que escolheu estudar por um futuro melhor havia fracassado.
Não podia deixar aquilo acontecer.
Olhando nos olhos de Dante, percebeu que a vida não era justa. Em questão de minutos, viu todos os anos de esforço, estudo e sacrifício serem colocados em risco por causa do ego e do capricho de um homem poderoso.
— Por quanto tempo? — perguntou em voz baixa.
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Dante. Ele sabia que havia feito a escolha certa a partir do momento em que aquela mulher entrou em sua sala. Pessoas como Fabiane eram fáceis de se manipular, porque a fraqueza estava estampada em seu rosto.
— Sabia que seria inteligente. — comentou com desdém.
— Por favor, não brinque comigo — pediu, revelando o olhar já cheio de lágrimas. — Só me diz por quanto tempo quer que eu faça isso.
— O tempo que eu achar necessário — respondeu, sem se importar com o olhar triste dela.
Mordendo os lábios, Fabi apenas assentiu. Não havia escolhas. Se tentasse denunciar o que ele estava fazendo, sairia perdendo. Seria a palavra dele contra a sua e, conhecendo bem o mundo em que vivia, sua palavra não valeria coisa alguma.
— Tudo bem — concordou.
Satisfeito, Dante tirou o carro do acostamento, voltou a dirigir e continuou a falar.
— Não se preocupe com nada, se fizer tudo o que eu disser, nada vai sair errado.
— E o que quer que eu faça?
— Apenas aja corretamente e não fale com ninguém sobre isso. Se algum repórter for atrás de você, apenas ignore.
— E se descobrirem que está mentindo?
— Só vão descobrir se você contar.
Ela estreitou os olhos e o encarou, sabendo que aquilo era um completo absurdo.
— Por hoje, não vou precisar mais de você — declarou. — Amanhã, esteja no meu gabinete às nove.
A forma como falava, como se ela fosse um objeto à sua disposição, a deixou completamente desconfortável.
— Me diz onde você mora que vou te deixar em casa.
Ela arregalou os olhos no mesmo instante. Não podia dizer onde realmente morava.
Além de ser um bairro simples da periferia, havia vizinhos curiosos demais. Se a vissem descendo de um carro luxuoso daqueles, os comentários se espalhariam pela rua antes mesmo de ela chegar em casa.
Também pensou na possibilidade de o pai bêbado vê-la descendo do carro e fazer um escândalo no meio da rua. Se começasse a ofender Dante, como costumava fazer quando bebia, não duvidava nem um pouco que o juiz encontrasse uma forma de fazê-lo pagar por isso.
Por conta desse pensamento, acabou passando o endereço da casa de sua amiga Talita.
Dante não fez perguntas, apenas continuou dirigindo por mais alguns minutos até parar em frente a uma bela casa num bairro de classe média.
Os olhos dele percorreram a fachada, o jardim bem cuidado e a rua tranquila. Um leve e discreto ar de satisfação surgiu em seu rosto, mas Fabi não percebeu.
Quando abriu a porta para descer do carro, Dante a segurou pelo braço e a fez parar.

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