Narrado por Ares Marino
Eu não queria estar ali.
Na verdade, estar naquele leilão era a última coisa que eu queria.
Mas os desgraçados dos meus amigos insistiram, como sempre.
— Vai te distrair — disseram.
— Faz meses que você não pisa fora da mansão — insistiram.
— Leandra ia querer te ver vivendo.
Idiotas.
Leandra está morta.
E eu não vivo.
Eu sobrevivo.
Meu nome é Ares Marino.
Tenho trinta e dois anos.
Sou o mais velho dos três irmãos Marino. O mais calado, o mais frio, o mais letal.
Dizem que nasci com gelo no lugar do coração.
Eles não sabem o quanto estão certos.
Até Leandra.
Ela foi a única que me viu por dentro.
A única que tocou nas minhas sombras e não fugiu.
Minha esposa.
Minha paz em meio ao inferno que eu mesmo construí.
E então, o mundo fez o que sempre faz com tudo que é bom demais: destruiu.
Leandra morreu há sete meses.
Sete meses e quatro dias, pra ser exato.
Num ataque covarde, uma emboscada que era pra me atingir, mas levou ela no meu lugar.
Ela estava indo buscar nossa filha no médico.
Um carro cruzou no caminho. Tiros.
Ela foi atingida duas vezes. Uma no abdômen. Outra no peito.
Ela ainda conseguiu sair dirigindo por alguns metros, tentando proteger a filha.
Quando os paramédicos chegaram, ela estava coberta de sangue, com a mão sobre o bebê, protegendo.
Minha filha, Luna, sobreviveu.
Leandra não.
Desde aquele dia, eu enterrei tudo que me restava de humano junto com ela.
Só restou o Dom da máfia.
O assassino.
O monstro.
Meus irmãos tentam me trazer de volta à superfície.
Poseidon com suas piadas idiotas. Hades com seus t***s na cara e gritos.
Mas não funciona.
Então hoje, para calá-los, aceitei vir.
Apenas por isso.
Um leilão de mulheres.
Algo que eu sempre achei repulsivo, mesmo sendo parte do mundo ao qual pertenço.
Mas, naquela noite, o tédio era maior que a moral.
E, no fundo, talvez uma parte de mim... só quisesse ver se o mundo ainda era tão podre quanto eu lembrava.
Spoiler: é.
Me sentei no fundo do salão. Terno preto. Uísque intocado na mesa.
Observei, com desprezo, os lances.
Homens babando. Mulheres tremendo.
Como se fossem carne.
E então... ela entrou.
Eu paralisei.
O vestido vermelho.
Os cabelos soltos.
Os olhos arregalados de medo.
A expressão de desespero.
Leandra.
Por um segundo, meu coração falhou.
Por um segundo, eu acreditei que estava vendo um fantasma.
Ela era idêntica.
Absolutamente idêntica.
Minha garganta secou.
Meu punho se fechou sobre a mesa.
Meus olhos não piscavam.
— Jovem, italiana, linda... e intacta — disse o apresentador.
Eu nem ouvi os valores sendo ditos.
Não me importava.
Podia custar um milhão, dez milhões... eu daria.
Ela não ia ser de mais ninguém.
Ela era o inferno que eu não esperava.
O espelho distorcido da minha mulher morta.
E isso me enlouqueceu.
Quando os lances chegaram em quatrocentos mil, eu falei:
— Quinhentos.
O salão silenciou.
Sabiam quem eu era.
Ninguém ousaria competir.


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